sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Missao impossivel... de alguem recusar!
Disney, aí vou eu!
Pela milionésima quadracentésima quinquagésima terceira vez, eu vou.
Com muitos lenços e documentos, todos devidamente regulamentados e aprovados pela cada vez mais rigorosa embaixada americana.
Mais um vez, minha mala vai com poucas coisas.
Apenas o necessário: uniforme de guia, sempre em cores vergonhosamente chamativas, dois crachás (um titular e um reserva para as atrações mais, digamos assim, molhadas), celulares, roomlist, câmera fotográfica - agora a minha charmosa e talentosa Nikon D60.
E, lógico, minha maravilhosa e infalível bandeirinha!
Vou lá, como a cada seis meses eu vou.
Já tenho as rotas de cabeça. Os parques, de cor e salteado. Mas a emoção... Ah! Grande sapeca. Ela sempre me pega despercebida, essa danada.
Eu considero absolutamente impossível chegar ao Magic Kingdom, andar na mainstreet USA com o castelo da Cinderella de vista principal, e não se arrepiar. Não voltar a ser criança. E falo com propriedade.
Disney é isso: mexer com nossos sonhos de criança!
Ninguém é muito velho ou muito novo. Toda idade é a idade ideal para realizarmos nossos sonhos ou até mesmo, de repente, vivermos nossas antigas fantasias.
A vida, por si só, já tem muita realidade, não é mesmo?
Queremos sim, ver o mundo através de vitrines, experimentar voar de foguete e aterrissar em Marte.
Ir no “It’s a Small World”, passar o resto do dia assobiando aquela musiquinha grudenta e terminar o dia vendo a Sininho descer voando do topo do castelo.
Eu conheço todo e cada canto daquele lugar.
Cresci vendo meu pai, minha mãe, meu irmão e muitos amigos fazendo o que, hoje, eu já faço há 10 anos: levar pessoas para conhecer o mundo encantado criado por Walt Disney.
Cada vez que eu passo por isso é indescritível!
Sim, sei, você deve estar pensando: “Ah! Essa aí tá vendendo o peixe da Acram Turismo...”
Mas eu queria uma vez, pelo menos uma única vez, trocar de lugar com alguém que ache que eu possa enjoar de fazer tudo isso. Ou até mesmo que eu já enjoei.
É simplesmente maravilhoso ver uma criança olhando para os personagens dos filmes que as fazem sonhar e inventar mil e uma brincadeiras fascinantes.
Ver adultos se divertindo como nunca imaginaram ser possível.
Perceber o olhar de surpresa das adolescentes quando elas vêem que estão realmente ali.
É um mundo de magia. Diversão é a palavra de ordem.
E atenção, como diz meu pai: “criança é de 2 a 60 anos, a partir daí é adolescente!”
Eu aprendi com o melhor guia do mundo.
Lembro do meu primeiro grupo solo. Meu pai me dava as coordenadas e eu ia em frente, orgulhosa, deitando falação, sabendo que estava seguindo os passos do meu grande mestre.
Quando entrávamos na atração propriamente dita, ele vinha no meu ouvido e dizia: “Olha, explica mais isso... Enfatiza mais aquilo...”
Até que um dia, no Universal Studios, ele me olhou com cara de dever cumprido quando eu expliquei, sem titubear, a atração Terminator-3.
Após dizer a última palavra, foram as palmas dele que recebi! As melhores palmas do mundo. Eu havia chegado lá.
Pode parecer engraçado, mas sempre que vou entro na fila pra tirar foto com o Mickey.
Porque ir à Disney e não tirar foto com o Mickey é o mesmo que não ir e fim de papo!
Fogos, paradas, músicas, sons, água, quedas, elevadores, carrinhos, passeios...
E pensar que tudo começou com um simples camundongo. Fala sério!
A disciplinada hierarquia Isper
E isso compreende as coisas mais variadas, começando por produtos eletrônicos, passando por carros e terminando em confortáveis camisas de botão, que os quilinhos a mais os impedem de usar – e eu adoro como roupa de casa o estilo “peça da escola pro dia dos pais”.
Não me entendam mal, isso é maravilhoso! Principalmente quando o assunto é gadgets eletrônicos, tecnologia de ponta e produtos de última geração que eu nem supunha existir.
Meu pai é um tecnology junkie e o Acram Jr. é uma cópia cuspida dele. Desde pequeno, meu irmão montava e desmontava um monte de coisas: carrinhos de controle remoto, videogames antigos, computadores do papai...
Ele sempre foi bastante curioso e cheio de idéias mirabolantes para o monte de fios coloridos colados em placas verdes que, a partir de seu toque pessoal, garantia, iria deixar o objeto “mais rápido, mais definido, mais alto, mais tudo”.
O primeiro videocassete da cidade foi comprado pelo meu pai. Ele trouxe “do estrangeiro”, numa de suas inúmeras viagens aos EUA, e passou vários dias brincando de descobrir todas as maravilhosas funções daquele aparelho revolucionário. E isso foi só o começo.
Perdi as contas de quantas vezes vi o laser disc do Michael Jackson servir de bucha de canhão para que papai testasse o som, que tinha que ser sempre no volume mais alto, de um novo produto adquirido. Se as paredes da casa não vibrassem como durante um terremoto, alguma coisa estava errada...
E quando estávamos, enfim, entrando no clima do “moon dancing”, ele pausava o aparelho, mexia nos fios lá atrás, invertia a posição de alguns conectores, voltava, recomeçava... E lá íamos nós tentar entrar no clima de novo.
As experiências do meu irmão com videogames foram incontáveis. Ele começou com o Atari e não parou mais. Nintendo, Super-Nintendo, Gameboy, Turbo-Express, Game Gear, todos eram comprados por ele assim que eram lançados e, evidentemente, sempre acabava pagando mais caro. Pior: não demorava muito, era lançado um outro que deixava aquele, digamos assim, obsoleto. Era aí que eu entrava.
Mr. Acram Jr., mestre supremo das negociações, trocava o seu novíssimo videogame por um determinado número de favores meus em um determinado período de tempo. Ele ficava bem na fita, já que posava de “bom moço” pro patriarca e ainda ganhava, de brinde, o novo aparelho que ele queria. E eu, por outro lado, torcia pra ele ganhar um novo aparelho porque sabia que um dia aquele também seria meu.
Os anos foram passando e, com isso, os interesses. Videogames já não me atraiam mais e foi a vez dos computadores. Eu “precisava” de um computador no meu quarto para trabalhos escolares e, lógico, passar horas conversando com amigos no mIRC.
Mais uma vez o maravilhoso desktop do meu irmão veio parar no meu quarto enquanto ele se deliciava com o que o papai tinha transferido para ele e o papai, por sua vez, abria as caixas do seu mais recente objeto de desejo.
Foram anos e anos até que eu percebesse que seria mais prático um notebook e daí já dá pra imaginar o que aconteceu...
Quando fiz 18 anos, o carro próprio era a meta. Herdei logo o rejeitado Scenic vinho de meu irmão. Não sabia muito bem como dominar aquela máquina e bati logo na segunda semana, aliás, pela segunda vez. A primeira foi um “arranhãozinho” lateral no portão de casa.
Quando o Scenic foi pro conserto, emprestei o Audi A3, fruto de uma penosa negociação com meu irmão, mas que, fugindo à regra, ainda estava virtualmente sob o controle do meu pai. Quando voltou o Scenic... Bem, evidentemente, eu já não queria mais saber dele.
Televisão foi uma das coisas de maior rotatividade. Até pouco tempo, a minha era uma fantástica Toshiba Lumina Line de 29”, que durante alguns anos reinou soberana e absoluta no quarto ao lado, até o aparecimento das incomparáveis televisões de plasma.
Não demorou muito para os geeks se sentirem ultrapassados pela concorrência e comprarem logo duas televisões de plasma, uma pra cada um.
No rescaldo dessa nova reciclagem, eu acabei trocando a minha Mitsubishi de 21”, que havia ganho num sorteio da feira de ciências da escola, pela lindona e bunduda Toshiba de 29”.
Bem, dessa vez (cá entre nós), o upgrade tecnológico demorou mais do que o previsto. Eu sempre me perguntava, olhando para o céu: “Quando será que o papai vai se cansar da TV dele pra dar pro Acram Jr. e eu, por conseguinte, ficar com a dele?”.
O tempo passava, o tempo voava, a poupança Bamerindus se afundava e o dois continuavam satisfeitíssimos com suas televisões de plasma. Por força das circunstâncias, eu aprendi a amar de coração a minha vintage.
Finalmente, meu pai se encantou por uma televisão maior e, por supuesto, ainda melhor. A caixa ocupava mais da metade da sala e, enquanto os dois se divertiam com os milhares de fios multicoloridos para serem conectados, eu dava pulinhos de alegria.
Meu irmão não contou história e foi logo trocando a dele pela antiga tevê do velho e em pouco tempo eu já estava com a minha maravilhosa TV de plasma com polegadas jamais antes experimentadas pelo meu humilde aposento.
E viva a vida em alta definição!
Nova escola de arquitetura de Mirsharshur
Céus! Eram apenas 8h30 da manhã, todos, inclusive eu, que estou iniciando minhas férias, estavam dormindo. Mas, pro meu avô, isso nunca fez diferença: o importante é que ele tinha serviço para ser feito e tinha que ser feito logo!
Meu avô é árabe. Sírio, para ser mais exata. Veio pro Brasil de barco com o meu pai ainda pequeno, e algumas moedas no bolso.
Viu macarrão pela primeira vez quando fez escala na Itália. Morreu de nojo achando que eram vermes e preferiu a “matula” que a minha avó havia trazido com pão e humus.
Nesta mesma situação, conta que meu pai, que corria de um lado para o outro do barco, escondeu os passaportes da família. Foi um sufoco. E vovô alega que papai tinha apenas um ano de idade, coisa que a gente duvida.
Foram vários os meios que o meu avô arranjou para ganhar dinheiro, quando chegou ao Brasil. Todos dignamente, claro, mas sempre com muito, muito suor.
Até hoje, aos 80 anos, ele é de uma disposição física invejável. Acorda antes de todo mundo, abre caixa, fecha caixa, e ainda tem tempo para um bom copo de vinho.
Passa o dia de olho nos trabalhadores, que sempre tem muito o que fazer. Faça chuva ou faça sol, ele sempre está construindo alguma coisa.
Não sei quando começou esse seu interesse pela engenharia / arquitetura. Todos os projetos e obras são coordenados por ele, pessoalmente. Tudo fica pronto rapidinho, e do jeitinho dele.
E a inspiração... Bem, supostamente, vem de sonhos... Se ele sonhar essa noite que quer um banheiro na sala, no outro dia, no fim da tarde, haverá um banheiro na sala e ponto final!
Qualquer desejo é uma ordem, quando o assunto é construir. Só tem que ter cuidado, como sempre, com o que ou como você deseja...
Meu avô segue as mais variadas tendências, mas sua preferida gira em torno de azulejos. Quanto mais, mais coloridos e mais variados, melhor!
E não tem problema se sobrar: ele sempre dá um jeito de encaixar o excedente na próxima obra, mesmo que não combine muito com o novo ambiente.
Se for um lugar um pouco mais escondido, corre o risco de virar um verdadeiro patchwork de azulejos.
O enfoque principal é a praticidade da obra. Se o degrau ficar alto demais ou o telhado curto, não importa, isso é o de menos. O importante é ficar pronto e o serviço terminar rápido, no menor tempo possível.
Depois se reajusta conforme a necessidade...
Se chover mais forte e começar a alagar a área de convívio, é só puxar um pouco mais o telhado e está tudo resolvido.
São as regras da "nova escola de arquitetura de Mirsharshur", da qual o vovô é fundador e único aluno. Mas em breve estaremos abrindo vagas aos interessados.
Cena típica é vê-lo sentado numa cadeira, sob um sol abrasador, de boné, bermuda e camisa pólo, supervisionando os pedreiros pendurados nos andaimes.
Dizem que o bode só engorda sob o olho do dono. Pra ele, esse adágio popular tem valor de lei.
Quando ele desconfia que a obra está demorando mais do que o necessário, simplesmente coloca a mão na massa.

Volta e meia, se a cadeira estiver vazia, pode procurar que o danado tá furando alguma coisa ou martelando qualquer outra.
Seu bronzeado faz inveja a muito golfista milionário e sua vitalidade é digna de um atleta campeão de triathlon.
Nós o chamamos de gidô, que sinifica vovô em árabe. Ainda hoje ele fala português com um sotaque arrastado e anda esquecendo um pouco do árabe.
Meu irmão brinca que, desse jeito, ele vai acabar ficando mudo.
Se faz de desentendido só quando convém, essa é vantagem que ele tira por ser mais velho e estrangeiro. Ele é assim, cheio de coisas pra fazer e sempre em regime de urgência.
Projetos prontos, projetos novos, tudo a 80 anos por hora. E sabem o que ele diz? “Eu nem sinto a minha idade”.
Puro sangue árabe!
De geracao em geracao
O velho ano novo...
Eu já tinha me conformado que o meu ano novo ia ser à base de sanduíche de atum e cupcakes de chocolate feitos por mim, nas dependências da minha casa. A família tinha decidido que ia fazer uma virada marcante no Tropical hotel e eu, macaca velha de ano novo em Manaus, discordei ao pensar no trânsito, sempre insano devido as comemorações oferecidas gratuitamente nesta área.
Meus pais estavam em Aruba, onde eu deveria estar também, mas por motivos capitalistas... venderam a minha vaga. Papai falou comigo pela internet e me convenceu que eu deveria ir... fazer um esforço. Eu, com peso na conciencia, convenci o meu irmão que deveriamos, de fato, ir.
Nos vestimos, entramos no meu carro com a Gisele (namorada do meu irmão) no comando e o Gabriel (meu namorado) me acompanhando.
Chegamos lá em pouco tempo. Foi quase inacreditável o mínimo de trânsito que pegamos. E eu comecei a acreditar que não tinha sido uma idéia tão ruim, assim, me tacar do parque 10 para a ponta negra.
Estacionamos o carro no prédio onde o pai da Gisele mantém um apartamento. Este se situa no início da PN e o tropical, como sabemos, é no final.
Começamos nossa caminhada alegres e satisfeitos quando começamos a notar que o trânsito fluia e que não tinha necessidade de estarmos andando a passos de triathlon a distância do que me pareceu uma verdadeira maratona em salto alto.
Reclamei o caminho inteiro. Do cansaço, dos meus pés, do calor, dos meus saltos...
De repente passou ao meu lado uma família esbanjando felicidade, caminhando. Cada membro carregada algo que parecia pesado como isopor cheio de bebida, churrasqueira, sacolas de compras. Eu virei pro meu irmão e exclamei: “e eu ainda reclamo...!”.
Bem, chegamos ao tal do reveillon. A vista era incrível. Barcos de todas as espécies e tamanhos tomavam a superfície do rio negro. Todos ansiavam pelos fogos, tão esperados.
Começa a contagem regressiva. Procurei meu irmão, que era a primeira pessoa que eu queria abraçar. COntamos juntos, abraçados, nós quatro. Era um feliz ano novo!
Abraços, beijos, olhos mareados e muitos sorrisos...
Decidimos em pouco que iamos embora. E a idéia da vinda era que, na volta, pegariamos um taxi até o prédio que, agora, parecia ainda mais longe!
Pedimos o taxi e a notícia que se seguiu não nos agradou nenhum pouco; o taxi não conseguia chegar até o tropical... o trânsito estava absolutamente parado.
Meu irmão começou a soltar fogo pelas ventas e decidimos que era melhor encararmos a caminhada de volta... o que, pra mim, pareceu uma via sacra.
No caminho o meu namorado tentava me distrair e eu, por minha vez, tentava me distrair dele. Ouvi por alto a Rita Lee cantar qualquer coisa que os meus pés não me deixaram entender bem.
Quando chegamos, nos deparamos com a realidade que não queriamos aceitar...
O prédio fica na parte de trás e o trânsito havia sido todo desviado de forma que o sentido de ida era pela rua de trás (do prédio) e o de volta era uma parte da avenida da frente (a qual tinhamos caminhado). Ou seja, nós teriamos que, inevitavelmente, fazer todo o contorno do trânsito.
As pessoas já estavam fora dos carros, conversando... perguntamos se estavam ali havia muito tempo e o rapaz rio e disse: “um pouco”...
Entramos no carro, ainda sob o comando de Gisele, às 2 am, e, só pra sair do portão do prédio, demoramos mais de 30 minutos. Quando abriu um brechinha meu irmão gritou “entra, Gisele, entra”... e nossos corações dispararam de alegria. Estavamos, pelo menos, na rua.
A partir daí começou uma longa jornada. Uma hora depois, nós haviamos andado poucos metros, e eu comecei a sentir uma dor de barriga incontrolável, daquelas que a gente se arrepia. O carro não andava e eu não conseguia pensar em nada além da minha vontade de ir ao banheiro...
Não aguentava mais quando saí do carro correndo e pedi ao porteiro de um prédio, pelo o amor de Deus, que me deixasse usar o banheiro... Ele, muito gentilmente, me acompanhou. Entrei correndo, a emoção era tanta que não consegui fazer nada além de um xixizinho tímido.
Quando saí, aliviada, apesar dos pesares. Notei que a piscina do prédio estava repleta de pessoas que me olhavam segurando o riso. Não perdi minha pose e continuei andando. Afinal, era uma emergência, questão de vida ou morte!
Ao chegar na rua tive uma surpresa: o carro tinha andado... e muito. Tudo bem, era uma boa notícia, mas lembre-se que eu acabava de sair do prédio e tive que andar (sim, andar de novo) até onde estava o carro.
Entrei, e começamos a conversar sobre as coisas que aconteciam em volta.
Fatos como o cara do palio da frente que paquerou a menina e conseguiu uma companhia pra noite. O rapaz do carro ao lado que tinha passado tanta colônia que estava incomodando meu irmão. O velho da dodge que ficava fazendo zig-zag e tentou furar nossa frente... tudo era motivo para comentários.
Ficamos parados ainda muito tempo entre o castelli e o mediterranée. Eu dormia e acordava e nós continuávamos nos mesmo lugar...
Enfim, abriram o outro lado da avenida e tudo começou a fluir mais. Os nossos nervos se acalmaram e não tardou muito para que chegássemos ao conforto do lar, e isso já eram 4 am. Mas, já dizia dorothy “não há lugar melhor que nossa casa”.
E esse é o bom e velho ano novo. Que seja feliz, então.
