Depois de 6 meses de trabalho arduo, nao remunerado e sem folga, joguei tudo para o alto e resolvi passar 10 dias curtindo o “calor” do verão europeu. Deixei Manaus aos 38 graus e abri asas rumo a 24 horas de viagem e 4 conexões. Desembarquei numa Amsterdã surpreendentemente ensolarada e os termotros marcavam maravilhosos 20 graus.
Haia era meu destino final e como eu ficaria ancorada lá, deixei para visitar a cidade só nos últimos dias.
Dentre os pontos turisticos da cidade carinhosamente listados pelo meu host estavam o Peace Palace e dois museus. O mapa foi cuidadosamente marcado com marca-texto rosa-choque e o percurso me foi explicado e repassado antenciosa e minunciosamente.
Marquei minha visita ao Peace Palace com 2 dias de antecedencia pelo telefone e recebi as seguintes instruções : Chegar 15 minutos antes do horário agendado e levar um document válido com foto.
Estava ansiosa com as maravilhas que Haia ia me oferecer e a previsão do tempo com “chuva e ventos fortes” não me intimidou nem um pouco, afinal, eu vinha da rain forest até parece que alguns pinguinhos de chuva iam me assustar, não é mesmo?
Na manhã de quinta feira saí portando um tímido guarda chuva de 5 euros, minha mochila e uma roupa que nas passarelas de Paris seria definida como “meia-estação”.
Pela porta da frente do prédio a chuva não parecia muita coisa. Dei de ombros, abri o guarda chuvas e saí confiante.
O Peace Palace ficava a cerca de um quarteirão do local onde eu estava hospedada e, como eu não sou feita de açucar, uma chuvinha à tôa não ia me fazer mal algum.
Não precisei de mais que 10 passos para pensar que o talvez o tempo não fosse tão inocente assim. Antes da metade do caminho a chuva já havia enxarcado a minha calça até os joelhos. O guarda chuva virou do avesso mais de 5 vezes e me foi necessário calculos metafísicos e manobras precisas para faze-lo voltar ao seu formato original. A cada rajada de vento me sentia em uma cena de comedia, as voltas com meu artefato que mais parecia um para-raios.
Comecei a me sentir uma idiota segurando uma parafernalha inútil sobre o crânio se de onde se de onde menos vinha água era do céu. A chuva caía horizontalmente e os carros que passavam na rua faziam o imenso favor de desafiar as leia da gravidade e, como se não bastasse, me molhavam de baixo pra cima.
Meus lindos sapatinhos no tom perfeito de crème viraram o wet’n wild para os meus pés engilhados de tanto ficarem embebidos em águas gélidas.
Eu era um misto de tristeza e indignação quando avistei o bendito palácio.
Apressei o passo e cheguei junto com uma família Americana composta de um pai, uma bela mãe, uma avó jovem e quatro filhos, todos ainda mais enxarcados que eu – o que me parecia impossível.
No momento que adentramos uma pequena porta ao lado do imponente portão, faltavam exatos 15 minutos para a hora marcada. Estávamos ávidos por um pouco de abrigo, calor e terra firme, nos amontoamos empaticamente no infimo espaço que sobrava entre a minúscula porta e a imensa máquina de raio-x da segurança, e soltamos quase que em uníssono um longo e agradavel suspiro de alívio. Acho que foi a alegria mais efêmera de toda minha vida… A porta não havia nem fechado quando um dos seguranças nos avisou, com a típica “sutileza” holandesa, que deveriamos esperar do lado de fora (na chuva!) até a hora exata.
Desnorteados como em um naufrágio, voltamos para o pandemônio e esperamos, com uma paciência digna de um lord ingles, ensopados, com frio, na chuva, o tal do palácio abrir suas portas para nossa entrada.
Quando passamos, finalmente, pela segurança, tivemos que atravessar o imenso caminho a céu aberto que nos levava do portão até a porta de entrada.
Inrrompemos as portas que seguiam a escadaria com o desespero de mendigos famintos em dia de sopão e uma certa vergonha do estado deplorável de tudo que nos pertencia, inclusive nossa dignidade.
A visita durou menos do que eu esperava e quando o guia se despediu, olhei através das imensas janelas históricas e meu coração se encheu de melancolia. Lá fora ainda chovia.
Suspirei fundo e contei nos dedos os dias que me restavam. Juntei um punhado de coragem que me restava, abri meu guarda chuva e saí, dessa vez, reticente.
Parei na calçada e abri meu mapa. Os pingos enfurecidos surravam o papel e o mapa emprestado ficou imprestável.
Olhei para um lado, olhei para o outro. Guardei o mapa na bolsa. Coloquei o rabinho entre as pernas e rumei de volta para o “lar doce lar.

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