sábado, 10 de setembro de 2011

O relógio do Gidô


Eu poderia escrever um livro com todas as histórias da família Isper. Nem todas tão engraçadas mas, sem dúvida, inacreditáveis. Meu pai é o filho mais velho, e o homem, de uma família árabe com 5 filhos. Logo, criou as outras 4 irmãs através da autoridade hierarquica de um irmão mais velho de qualquer família árabe que se preze.

Meu avô, um senhor forte, com uma saúde de ferro e vitalidade de botar inveja em muito rato de academia de 25 anos, é casado com a minha avó há 50 anos. Os dois vieram pro Brasil com sonhos e pouco dinheiro no bolso, lutaram muito até construirem um “palácio”na Joaquim Nabuco para trazer minha bisavó Dalaona, da Síria, pra cá. Quando ela entrou e viu a magnitude que meu avô havia construído, chorou de emoção.

Esse fim de ano resolveram que iam passar o natal nos Estados Unidos na casa de uma das minhas tias, onde se encontrariam com mais duas das irmãs do meu pai. Foram muitas festas e, sem dúvida, compras.

Na ida para o paraíso do consumismo meu pai convecera, depois de muito esforço, fazer com que cada um de seus pais levassem um mala extra, vazia. Minha mão foi ajuda-los a despachar tudo e entrega-los com carinho e pedido de atenção extra às nossas preciosidades. É, os papéis se invertem depois de um tempo!

É difícil saber quanto tempo foi exatamente que eles passaram longe, a saudade acaba deixando tudo meio sem perspectiva. Mas, as vesperas da volta, meu pai fazia uma reunião de cúpula através do skype, enquanto minha mãe lia qualquer coisa no seu Ipad.

O tópico era “o relógio” que meu avô tinha comprado.

A copa airlines®, em alta temporada, nao despacha caixa. O relógio, por sua vez, era grande demais. As malas já estavam absolutamente lotadas. E a questão era: como vamos levar “o relógio”?

As três, no outro extremo, gritavam ao mesmo tempo idéias variadas. Uma dizia pra tirar tudo e ir só o relógio. A outra dizia pra colocar o relógio junto com tudo que, garantia, dava e ainda sobrava. E outra dizia pra deixar o relógio e, completava, que era um absurdo comprar um relógio daquele tamanho.

Meu pai, do seu lado, fazia calculos metafísicos para a possibilidade ou não de trazer, embarcar ou despachar o bendito relógio. E meu avô insistia em levar o relógio na mão.

Depois de discutir, votar e segundo turno, decidiram que iam até o aeroporto tentar despachar a caixa e se não desse, pegariam uma mala extra e colocariam o relógio dentro da mala. E tenho dito.

Assunto ia, assunto vinha. Entao, está tudo resolvido. Vão duas malas e o relógio, qualquer coisa põe o relógio em uma mala extra. Todo mundo concordava e meu avô dizia com seu sotaque carregado: “então, pega e leva relógio na mão”.

Meu pai pedia pra que ele ouvisse com atenção e explicava todo o processo em voz alta e clara e, no fim o vovô dizia: “então, pega e leva relógio na mão”.

As outras tentavam fazer mímicas, atuações, desenhos e no fim: “então, pega e leva relógio na mão”.

Minha mãe só de espectadora, dava pequenas risadinhas, mas decidiu intervir e dizer para o meu pai deixar de lado e deixar o vovô fazer como quisesse.

Ele tinha colocado na cabeça que o relógio ia na mão, então deixa levar na mão.

Depois de resolvido, já começavam as despedidas e recomendações quando apareceu um computador que minha vó tinha comprado. Eles já tinham um volume extra e queriam levar o computador dentro da mala. Aí já foram outros calculos e outras soluções.

Mais uma vez achavam que já tinha tudo sob controle, resolveram pesar as malas. Põe na balança, converte pounds pra quilos e dá mais de 32 Kg. Abre a mala, tira as coisas, divide, redivide, fecha, pesa e ainda dá mais de 32 Kg.

Não sei quantos abre e fecha foram e aonde colocaram os quilos extras, mas no fim, estava tudo dentro dos conformes para embacarem sãos e salvos de volta pra casa.

Depois de tudo, o relógio foi despachado, as malas estavam certas e eles chegaram alegres e lampreiros na chuvosa Manaus.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A (não tão pacífica) visita ao Peace Palace



Depois de 6 meses de trabalho arduo, nao remunerado e sem folga, joguei tudo para o alto e resolvi passar 10 dias curtindo o “calor” do verão europeu. Deixei Manaus aos 38 graus e abri asas rumo a 24 horas de viagem e 4 conexões. Desembarquei numa Amsterdã surpreendentemente ensolarada e os termotros marcavam maravilhosos 20 graus.

Haia era meu destino final e como eu ficaria ancorada lá, deixei para visitar a cidade só nos últimos dias.

Dentre os pontos turisticos da cidade carinhosamente listados pelo meu host estavam o Peace Palace e dois museus. O mapa foi cuidadosamente marcado com marca-texto rosa-choque e o percurso me foi explicado e repassado antenciosa e minunciosamente.

Marquei minha visita ao Peace Palace com 2 dias de antecedencia pelo telefone e recebi as seguintes instruções : Chegar 15 minutos antes do horário agendado e levar um document válido com foto.

Estava ansiosa com as maravilhas que Haia ia me oferecer e a previsão do tempo com “chuva e ventos fortes” não me intimidou nem um pouco, afinal, eu vinha da rain forest até parece que alguns pinguinhos de chuva iam me assustar, não é mesmo?

Na manhã de quinta feira saí portando um tímido guarda chuva de 5 euros, minha mochila e uma roupa que nas passarelas de Paris seria definida como “meia-estação”.

Pela porta da frente do prédio a chuva não parecia muita coisa. Dei de ombros, abri o guarda chuvas e saí confiante.

O Peace Palace ficava a cerca de um quarteirão do local onde eu estava hospedada e, como eu não sou feita de açucar, uma chuvinha à tôa não ia me fazer mal algum.

Não precisei de mais que 10 passos para pensar que o talvez o tempo não fosse tão inocente assim. Antes da metade do caminho a chuva já havia enxarcado a minha calça até os joelhos. O guarda chuva virou do avesso mais de 5 vezes e me foi necessário calculos metafísicos e manobras precisas para faze-lo voltar ao seu formato original. A cada rajada de vento me sentia em uma cena de comedia, as voltas com meu artefato que mais parecia um para-raios.

Comecei a me sentir uma idiota segurando uma parafernalha inútil sobre o crânio se de onde se de onde menos vinha água era do céu. A chuva caía horizontalmente e os carros que passavam na rua faziam o imenso favor de desafiar as leia da gravidade e, como se não bastasse, me molhavam de baixo pra cima.

Meus lindos sapatinhos no tom perfeito de crème viraram o wet’n wild para os meus pés engilhados de tanto ficarem embebidos em águas gélidas.


Eu era um misto de tristeza e indignação quando avistei o bendito palácio.

Apressei o passo e cheguei junto com uma família Americana composta de um pai, uma bela mãe, uma avó jovem e quatro filhos, todos ainda mais enxarcados que eu – o que me parecia impossível.

No momento que adentramos uma pequena porta ao lado do imponente portão, faltavam exatos 15 minutos para a hora marcada. Estávamos ávidos por um pouco de abrigo, calor e terra firme, nos amontoamos empaticamente no infimo espaço que sobrava entre a minúscula porta e a imensa máquina de raio-x da segurança, e soltamos quase que em uníssono um longo e agradavel suspiro de alívio. Acho que foi a alegria mais efêmera de toda minha vida… A porta não havia nem fechado quando um dos seguranças nos avisou, com a típica “sutileza” holandesa, que deveriamos esperar do lado de fora (na chuva!) até a hora exata.

Desnorteados como em um naufrágio, voltamos para o pandemônio e esperamos, com uma paciência digna de um lord ingles, ensopados, com frio, na chuva, o tal do palácio abrir suas portas para nossa entrada.

Quando passamos, finalmente, pela segurança, tivemos que atravessar o imenso caminho a céu aberto que nos levava do portão até a porta de entrada.

Inrrompemos as portas que seguiam a escadaria com o desespero de mendigos famintos em dia de sopão e uma certa vergonha do estado deplorável de tudo que nos pertencia, inclusive nossa dignidade.

A visita durou menos do que eu esperava e quando o guia se despediu, olhei através das imensas janelas históricas e meu coração se encheu de melancolia. Lá fora ainda chovia.

Suspirei fundo e contei nos dedos os dias que me restavam. Juntei um punhado de coragem que me restava, abri meu guarda chuva e saí, dessa vez, reticente.

Parei na calçada e abri meu mapa. Os pingos enfurecidos surravam o papel e o mapa emprestado ficou imprestável.

Olhei para um lado, olhei para o outro. Guardei o mapa na bolsa. Coloquei o rabinho entre as pernas e rumei de volta para o “lar doce lar.