sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Missao impossivel... de alguem recusar!

Estou de malas prontas.

Disney, aí vou eu!

Pela milionésima quadracentésima quinquagésima terceira vez, eu vou.

Com muitos lenços e documentos, todos devidamente regulamentados e aprovados pela cada vez mais rigorosa embaixada americana.

Mais um vez, minha mala vai com poucas coisas.

Apenas o necessário: uniforme de guia, sempre em cores vergonhosamente chamativas, dois crachás (um titular e um reserva para as atrações mais, digamos assim, molhadas), celulares, roomlist, câmera fotográfica - agora a minha charmosa e talentosa Nikon D60.

E, lógico, minha maravilhosa e infalível bandeirinha!

Vou lá, como a cada seis meses eu vou.

Já tenho as rotas de cabeça. Os parques, de cor e salteado. Mas a emoção... Ah! Grande sapeca. Ela sempre me pega despercebida, essa danada.

Eu considero absolutamente impossível chegar ao Magic Kingdom, andar na mainstreet USA com o castelo da Cinderella de vista principal, e não se arrepiar. Não voltar a ser criança. E falo com propriedade.

Disney é isso: mexer com nossos sonhos de criança!

Ninguém é muito velho ou muito novo. Toda idade é a idade ideal para realizarmos nossos sonhos ou até mesmo, de repente, vivermos nossas antigas fantasias.

A vida, por si só, já tem muita realidade, não é mesmo?

Queremos sim, ver o mundo através de vitrines, experimentar voar de foguete e aterrissar em Marte.

Ir no “It’s a Small World”, passar o resto do dia assobiando aquela musiquinha grudenta e terminar o dia vendo a Sininho descer voando do topo do castelo.

Eu conheço todo e cada canto daquele lugar.

Cresci vendo meu pai, minha mãe, meu irmão e muitos amigos fazendo o que, hoje, eu já faço há 10 anos: levar pessoas para conhecer o mundo encantado criado por Walt Disney.

Cada vez que eu passo por isso é indescritível!

Sim, sei, você deve estar pensando: “Ah! Essa aí tá vendendo o peixe da Acram Turismo...”

Mas eu queria uma vez, pelo menos uma única vez, trocar de lugar com alguém que ache que eu possa enjoar de fazer tudo isso. Ou até mesmo que eu já enjoei.

É simplesmente maravilhoso ver uma criança olhando para os personagens dos filmes que as fazem sonhar e inventar mil e uma brincadeiras fascinantes.

Ver adultos se divertindo como nunca imaginaram ser possível.

Perceber o olhar de surpresa das adolescentes quando elas vêem que estão realmente ali.

É um mundo de magia. Diversão é a palavra de ordem.

E atenção, como diz meu pai: “criança é de 2 a 60 anos, a partir daí é adolescente!”

Eu aprendi com o melhor guia do mundo.

Lembro do meu primeiro grupo solo. Meu pai me dava as coordenadas e eu ia em frente, orgulhosa, deitando falação, sabendo que estava seguindo os passos do meu grande mestre.

Quando entrávamos na atração propriamente dita, ele vinha no meu ouvido e dizia: “Olha, explica mais isso... Enfatiza mais aquilo...”

Até que um dia, no Universal Studios, ele me olhou com cara de dever cumprido quando eu expliquei, sem titubear, a atração Terminator-3.

Após dizer a última palavra, foram as palmas dele que recebi! As melhores palmas do mundo. Eu havia chegado lá.

Pode parecer engraçado, mas sempre que vou entro na fila pra tirar foto com o Mickey.

Porque ir à Disney e não tirar foto com o Mickey é o mesmo que não ir e fim de papo!

Fogos, paradas, músicas, sons, água, quedas, elevadores, carrinhos, passeios...

E pensar que tudo começou com um simples camundongo. Fala sério!

A disciplinada hierarquia Isper

Desde que me entendo por ser pensante as coisas lá por casa funcionam da seguinte maneira: o que é do meu pai passa pro meu irmão e o que era do meu irmão automaticamente passa pra mim. Nessa ordem imutável.

E isso compreende as coisas mais variadas, começando por produtos eletrônicos, passando por carros e terminando em confortáveis camisas de botão, que os quilinhos a mais os impedem de usar – e eu adoro como roupa de casa o estilo “peça da escola pro dia dos pais”.

Não me entendam mal, isso é maravilhoso! Principalmente quando o assunto é gadgets eletrônicos, tecnologia de ponta e produtos de última geração que eu nem supunha existir.

Meu pai é um tecnology junkie e o Acram Jr. é uma cópia cuspida dele. Desde pequeno, meu irmão montava e desmontava um monte de coisas: carrinhos de controle remoto, videogames antigos, computadores do papai...

Ele sempre foi bastante curioso e cheio de idéias mirabolantes para o monte de fios coloridos colados em placas verdes que, a partir de seu toque pessoal, garantia, iria deixar o objeto “mais rápido, mais definido, mais alto, mais tudo”.

O primeiro videocassete da cidade foi comprado pelo meu pai. Ele trouxe “do estrangeiro”, numa de suas inúmeras viagens aos EUA, e passou vários dias brincando de descobrir todas as maravilhosas funções daquele aparelho revolucionário. E isso foi só o começo.

Perdi as contas de quantas vezes vi o laser disc do Michael Jackson servir de bucha de canhão para que papai testasse o som, que tinha que ser sempre no volume mais alto, de um novo produto adquirido. Se as paredes da casa não vibrassem como durante um terremoto, alguma coisa estava errada...

E quando estávamos, enfim, entrando no clima do “moon dancing”, ele pausava o aparelho, mexia nos fios lá atrás, invertia a posição de alguns conectores, voltava, recomeçava... E lá íamos nós tentar entrar no clima de novo.




As experiências do meu irmão com videogames foram incontáveis. Ele começou com o Atari e não parou mais. Nintendo, Super-Nintendo, Gameboy, Turbo-Express, Game Gear, todos eram comprados por ele assim que eram lançados e, evidentemente, sempre acabava pagando mais caro. Pior: não demorava muito, era lançado um outro que deixava aquele, digamos assim, obsoleto. Era aí que eu entrava.

Mr. Acram Jr., mestre supremo das negociações, trocava o seu novíssimo videogame por um determinado número de favores meus em um determinado período de tempo. Ele ficava bem na fita, já que posava de “bom moço” pro patriarca e ainda ganhava, de brinde, o novo aparelho que ele queria. E eu, por outro lado, torcia pra ele ganhar um novo aparelho porque sabia que um dia aquele também seria meu.

Os anos foram passando e, com isso, os interesses. Videogames já não me atraiam mais e foi a vez dos computadores. Eu “precisava” de um computador no meu quarto para trabalhos escolares e, lógico, passar horas conversando com amigos no mIRC.

Mais uma vez o maravilhoso desktop do meu irmão veio parar no meu quarto enquanto ele se deliciava com o que o papai tinha transferido para ele e o papai, por sua vez, abria as caixas do seu mais recente objeto de desejo.

Foram anos e anos até que eu percebesse que seria mais prático um notebook e daí já dá pra imaginar o que aconteceu...

Quando fiz 18 anos, o carro próprio era a meta. Herdei logo o rejeitado Scenic vinho de meu irmão. Não sabia muito bem como dominar aquela máquina e bati logo na segunda semana, aliás, pela segunda vez. A primeira foi um “arranhãozinho” lateral no portão de casa.

Quando o Scenic foi pro conserto, emprestei o Audi A3, fruto de uma penosa negociação com meu irmão, mas que, fugindo à regra, ainda estava virtualmente sob o controle do meu pai. Quando voltou o Scenic... Bem, evidentemente, eu já não queria mais saber dele.

Televisão foi uma das coisas de maior rotatividade. Até pouco tempo, a minha era uma fantástica Toshiba Lumina Line de 29”, que durante alguns anos reinou soberana e absoluta no quarto ao lado, até o aparecimento das incomparáveis televisões de plasma.

Não demorou muito para os geeks se sentirem ultrapassados pela concorrência e comprarem logo duas televisões de plasma, uma pra cada um.

No rescaldo dessa nova reciclagem, eu acabei trocando a minha Mitsubishi de 21”, que havia ganho num sorteio da feira de ciências da escola, pela lindona e bunduda Toshiba de 29”.

Bem, dessa vez (cá entre nós), o upgrade tecnológico demorou mais do que o previsto. Eu sempre me perguntava, olhando para o céu: “Quando será que o papai vai se cansar da TV dele pra dar pro Acram Jr. e eu, por conseguinte, ficar com a dele?”.

O tempo passava, o tempo voava, a poupança Bamerindus se afundava e o dois continuavam satisfeitíssimos com suas televisões de plasma. Por força das circunstâncias, eu aprendi a amar de coração a minha vintage.

Finalmente, meu pai se encantou por uma televisão maior e, por supuesto, ainda melhor. A caixa ocupava mais da metade da sala e, enquanto os dois se divertiam com os milhares de fios multicoloridos para serem conectados, eu dava pulinhos de alegria.

Meu irmão não contou história e foi logo trocando a dele pela antiga tevê do velho e em pouco tempo eu já estava com a minha maravilhosa TV de plasma com polegadas jamais antes experimentadas pelo meu humilde aposento.

E viva a vida em alta definição!

Nova escola de arquitetura de Mirsharshur

Hoje eu acordei ao som de toc-toc, bate-bate e fura-fura no telhado. Quando saí do quarto, de cara amassada, para ver o que acontecia, me deparei com o meu avô, de furadeira na mão, gritando para os pedreiros que pendiam de andaimes no telhado.

Céus! Eram apenas 8h30 da manhã, todos, inclusive eu, que estou iniciando minhas férias, estavam dormindo. Mas, pro meu avô, isso nunca fez diferença: o importante é que ele tinha serviço para ser feito e tinha que ser feito logo!

Meu avô é árabe. Sírio, para ser mais exata. Veio pro Brasil de barco com o meu pai ainda pequeno, e algumas moedas no bolso.

Viu macarrão pela primeira vez quando fez escala na Itália. Morreu de nojo achando que eram vermes e preferiu a “matula” que a minha avó havia trazido com pão e humus.

Nesta mesma situação, conta que meu pai, que corria de um lado para o outro do barco, escondeu os passaportes da família. Foi um sufoco. E vovô alega que papai tinha apenas um ano de idade, coisa que a gente duvida.

Foram vários os meios que o meu avô arranjou para ganhar dinheiro, quando chegou ao Brasil. Todos dignamente, claro, mas sempre com muito, muito suor.

Até hoje, aos 80 anos, ele é de uma disposição física invejável. Acorda antes de todo mundo, abre caixa, fecha caixa, e ainda tem tempo para um bom copo de vinho.

Passa o dia de olho nos trabalhadores, que sempre tem muito o que fazer. Faça chuva ou faça sol, ele sempre está construindo alguma coisa.

Não sei quando começou esse seu interesse pela engenharia / arquitetura. Todos os projetos e obras são coordenados por ele, pessoalmente. Tudo fica pronto rapidinho, e do jeitinho dele.

E a inspiração... Bem, supostamente, vem de sonhos... Se ele sonhar essa noite que quer um banheiro na sala, no outro dia, no fim da tarde, haverá um banheiro na sala e ponto final!

Qualquer desejo é uma ordem, quando o assunto é construir. Só tem que ter cuidado, como sempre, com o que ou como você deseja...

Meu avô segue as mais variadas tendências, mas sua preferida gira em torno de azulejos. Quanto mais, mais coloridos e mais variados, melhor!

E não tem problema se sobrar: ele sempre dá um jeito de encaixar o excedente na próxima obra, mesmo que não combine muito com o novo ambiente.

Se for um lugar um pouco mais escondido, corre o risco de virar um verdadeiro patchwork de azulejos.

O enfoque principal é a praticidade da obra. Se o degrau ficar alto demais ou o telhado curto, não importa, isso é o de menos. O importante é ficar pronto e o serviço terminar rápido, no menor tempo possível.

Depois se reajusta conforme a necessidade...

Se chover mais forte e começar a alagar a área de convívio, é só puxar um pouco mais o telhado e está tudo resolvido.

São as regras da "nova escola de arquitetura de Mirsharshur", da qual o vovô é fundador e único aluno. Mas em breve estaremos abrindo vagas aos interessados.

Cena típica é vê-lo sentado numa cadeira, sob um sol abrasador, de boné, bermuda e camisa pólo, supervisionando os pedreiros pendurados nos andaimes.

Dizem que o bode só engorda sob o olho do dono. Pra ele, esse adágio popular tem valor de lei.

Quando ele desconfia que a obra está demorando mais do que o necessário, simplesmente coloca a mão na massa.


Volta e meia, se a cadeira estiver vazia, pode procurar que o danado tá furando alguma coisa ou martelando qualquer outra.

Seu bronzeado faz inveja a muito golfista milionário e sua vitalidade é digna de um atleta campeão de triathlon.

Nós o chamamos de gidô, que sinifica vovô em árabe. Ainda hoje ele fala português com um sotaque arrastado e anda esquecendo um pouco do árabe.

Meu irmão brinca que, desse jeito, ele vai acabar ficando mudo.

Se faz de desentendido só quando convém, essa é vantagem que ele tira por ser mais velho e estrangeiro. Ele é assim, cheio de coisas pra fazer e sempre em regime de urgência.

Projetos prontos, projetos novos, tudo a 80 anos por hora. E sabem o que ele diz? “Eu nem sinto a minha idade”.

Puro sangue árabe!

De geracao em geracao

Detetizacao 'e um porre, e nao tem quem nao concorde. Ainda mais pra mim, que pago pra nao sair de casa e dobro a oferta pra nao me tirarem... Mas, nas atuais circunstancia, detetizar era preciso!

Eu precisava ficar uma hora fora de casa. E a noticia veio de surpresa justo na hora em que estava recebendo amigos. Resolvemos que eu levaria as minhas parafernalhas para a casa da Beta e eu preparia uma das minhas especialidades - brownies, para passar o tempo...

Saimos em carreata rumo a ponta negra. Uma longa viagem, na minha opiniao que sou acostumada a morar perto de tudo. No caminho eu vinha ouvindo meu namorado reclamar da geracao em que ele estava, que nao era a geracao do Ipad - a revolucionaria inovacao de Steve Jobs.

Quando chegamos, o clima era funebre, nos despediamos de tudo que era do nosso tempo e aceitavamos, a duras penas, a nova geracao!

A conversa continuava passando por walkman, diskman, videocassete, videogames. Esse ultimo topico agucou a curiosidade do filho da minha amiga de 7 anos, que adora jogos!

Ele tem todos, de todos os tipos e sabe, melhor que eu, como funcionam...

Nao demorou muito pra ele voltar la de dentro com o DSI dele em maos. Aquilo que, para nos, nao passava de um gameboy metido a besta, esnobava as maravilhas dos graficos modernos para a surpresa dos dois matusalem da tecnologia. E mais, ainda tinha camera!

A cena era: o pequeno no meio com o artefato e os dois marmanjos maravilhados, um de cada lado. Entre um comentario inacabado e outro, expressoes de surpresa. Ate' eu, que estava distraida derretendo chocolate em banho maria, me rendi a curiosidade e fui me juntar a eles.

Era realmente impressionante!

O garoto se gabava de todos os jogos e videogames que ele tinha em maos e mostrava, com propriedade, as abilidades que havia desenvolvido durante tanto tempo de treino. Foi quando nos, os ultrapassados, comecamos a falar sobre o nitendo, SUPER-nitendo, gameboy. E nesse ponto, nos comecamos a esnoba-lo, pois ele nunca tinha jogado, e mais, nem tinha ouvido falar.

Falamos alto, um por cima do outro, atropelando palavras, lembrando nomes... Nostalgia!

Quando, num rompante de frustracao, o menino vira e diz: "Ei! E todas essas coisas que voces estao falando tem camera?"

Explodimos em gargalhadas. Eramos, de fato, outra geracao.

O velho ano novo...

Eu já tinha me conformado que o meu ano novo ia ser à base de sanduíche de atum e cupcakes de chocolate feitos por mim, nas dependências da minha casa. A família tinha decidido que ia fazer uma virada marcante no Tropical hotel e eu, macaca velha de ano novo em Manaus, discordei ao pensar no trânsito, sempre insano devido as comemorações oferecidas gratuitamente nesta área.


Meus pais estavam em Aruba, onde eu deveria estar também, mas por motivos capitalistas... venderam a minha vaga. Papai falou comigo pela internet e me convenceu que eu deveria ir... fazer um esforço. Eu, com peso na conciencia, convenci o meu irmão que deveriamos, de fato, ir.


Nos vestimos, entramos no meu carro com a Gisele (namorada do meu irmão) no comando e o Gabriel (meu namorado) me acompanhando.


Chegamos lá em pouco tempo. Foi quase inacreditável o mínimo de trânsito que pegamos. E eu comecei a acreditar que não tinha sido uma idéia tão ruim, assim, me tacar do parque 10 para a ponta negra.


Estacionamos o carro no prédio onde o pai da Gisele mantém um apartamento. Este se situa no início da PN e o tropical, como sabemos, é no final.


Começamos nossa caminhada alegres e satisfeitos quando começamos a notar que o trânsito fluia e que não tinha necessidade de estarmos andando a passos de triathlon a distância do que me pareceu uma verdadeira maratona em salto alto.


Reclamei o caminho inteiro. Do cansaço, dos meus pés, do calor, dos meus saltos...


De repente passou ao meu lado uma família esbanjando felicidade, caminhando. Cada membro carregada algo que parecia pesado como isopor cheio de bebida, churrasqueira, sacolas de compras. Eu virei pro meu irmão e exclamei: “e eu ainda reclamo...!”.


Bem, chegamos ao tal do reveillon. A vista era incrível. Barcos de todas as espécies e tamanhos tomavam a superfície do rio negro. Todos ansiavam pelos fogos, tão esperados.


Começa a contagem regressiva. Procurei meu irmão, que era a primeira pessoa que eu queria abraçar. COntamos juntos, abraçados, nós quatro. Era um feliz ano novo!


Abraços, beijos, olhos mareados e muitos sorrisos...


Decidimos em pouco que iamos embora. E a idéia da vinda era que, na volta, pegariamos um taxi até o prédio que, agora, parecia ainda mais longe!


Pedimos o taxi e a notícia que se seguiu não nos agradou nenhum pouco; o taxi não conseguia chegar até o tropical... o trânsito estava absolutamente parado.


Meu irmão começou a soltar fogo pelas ventas e decidimos que era melhor encararmos a caminhada de volta... o que, pra mim, pareceu uma via sacra.


No caminho o meu namorado tentava me distrair e eu, por minha vez, tentava me distrair dele. Ouvi por alto a Rita Lee cantar qualquer coisa que os meus pés não me deixaram entender bem.


Quando chegamos, nos deparamos com a realidade que não queriamos aceitar...


O prédio fica na parte de trás e o trânsito havia sido todo desviado de forma que o sentido de ida era pela rua de trás (do prédio) e o de volta era uma parte da avenida da frente (a qual tinhamos caminhado). Ou seja, nós teriamos que, inevitavelmente, fazer todo o contorno do trânsito.


As pessoas já estavam fora dos carros, conversando... perguntamos se estavam ali havia muito tempo e o rapaz rio e disse: “um pouco”...


Entramos no carro, ainda sob o comando de Gisele, às 2 am, e, só pra sair do portão do prédio, demoramos mais de 30 minutos. Quando abriu um brechinha meu irmão gritou “entra, Gisele, entra”... e nossos corações dispararam de alegria. Estavamos, pelo menos, na rua.


A partir daí começou uma longa jornada. Uma hora depois, nós haviamos andado poucos metros, e eu comecei a sentir uma dor de barriga incontrolável, daquelas que a gente se arrepia. O carro não andava e eu não conseguia pensar em nada além da minha vontade de ir ao banheiro...

Não aguentava mais quando saí do carro correndo e pedi ao porteiro de um prédio, pelo o amor de Deus, que me deixasse usar o banheiro... Ele, muito gentilmente, me acompanhou. Entrei correndo, a emoção era tanta que não consegui fazer nada além de um xixizinho tímido.


Quando saí, aliviada, apesar dos pesares. Notei que a piscina do prédio estava repleta de pessoas que me olhavam segurando o riso. Não perdi minha pose e continuei andando. Afinal, era uma emergência, questão de vida ou morte!


Ao chegar na rua tive uma surpresa: o carro tinha andado... e muito. Tudo bem, era uma boa notícia, mas lembre-se que eu acabava de sair do prédio e tive que andar (sim, andar de novo) até onde estava o carro.


Entrei, e começamos a conversar sobre as coisas que aconteciam em volta.


Fatos como o cara do palio da frente que paquerou a menina e conseguiu uma companhia pra noite. O rapaz do carro ao lado que tinha passado tanta colônia que estava incomodando meu irmão. O velho da dodge que ficava fazendo zig-zag e tentou furar nossa frente... tudo era motivo para comentários.


Ficamos parados ainda muito tempo entre o castelli e o mediterranée. Eu dormia e acordava e nós continuávamos nos mesmo lugar...


Enfim, abriram o outro lado da avenida e tudo começou a fluir mais. Os nossos nervos se acalmaram e não tardou muito para que chegássemos ao conforto do lar, e isso já eram 4 am. Mas, já dizia dorothy “não há lugar melhor que nossa casa”.


E esse é o bom e velho ano novo. Que seja feliz, então.


Minha casa.

Durante mais de 15 anos eu morei na mesma casa. E à medida que o tempo ia passando, ela ia mudando com a gente...

A principio era um quarto amarelo e azul, com estampas florais e camas de solteiro. Um balanco, feito por mim, pendia de um dos galhos do imenso ingazeiro que sombreava a faixada... a rua era duas maos, e o caminho até a escola mais curto.

A arvore foi cortada, dada a necessidade de fazer uma nova garagem... meu balanco, pro lixo.

O quarto do meu irmao era pequeno, mas era o mais divertido e cheio de coisas. Era como um esconderijo, voce entrava e andava de lado entre a cama e o movel (que, acreditem, existia!) abarrotado de eletronicos, caixas de som, novidades, etc. As prateleiras eram rebeldes, tomada por livros e objetos, sempre acertavam a testa de alguem...

A rua virou mao unica, em direcao a rua recife. Dar carona pros cativos ficou um pouco mais complicado, mas o pouco movimento na via permitia algumas "barbeiragens".

O quarto de hospedes abrigou muita gente, até chegar minha vó... e ai, era o quarto da vovó! Todos os outros ambientes (fora o quarto do meu irmao) eram bem mais amplos, mas alguma coisa sempre nos levava a ficar amontoados lá dentro...

A casa toda cheirava a madeira... era ventilada e tinha uma das melhores vistas da cidade.
Foi palco para festas, cenario para filmes e o nosso lar.

Em um dado momento resolvemos reformar; meu quarto passou para lilás, cama de casal, closet espacoso e cara de adolescente... meu irmao mudou do cubículo para um espacoso loftcom entrada independente... mamãe ganhou mais espaco para as roupas e papai menos bagunça.

Enfim, resolvemos fazer a piscina... Nossos domingos ficaram mais coloridos e cheios de vida. Papai colocava a melhor trilha sonora pro momento, gidô trazia kibe e outras delicias, e fechava o almoco com uma maravilhosa sobremesa da vovó...

Minha mae adorava o jardim. Molhar as plantas, plantar as plantas, colher as plantas... era o toque de tanto amor que dava vida àquele lugar.

Nosso canto comecou a virar o canto de muita gente... e começou o pesadelo.

Primeira obra; do predio atras... ouviamos tudo, do toque de entrar, de almoco, de volta, de sair e de hora extra. Furadeira, serra, martelo, caminhoes, poeira, alergia, dor de cabeca e furia... Foram sei lá quantos anos até ele ficar pronto, e bem em cima da nossa privacidade. Mas, pelo menos, dormir e respirar era possível.

Quando pensamos que nossos problemas tinham acabado, o vizinho da esquerda vende a casa e, pra nossa "alegria", iam construir um predio no local...

Ok, ok... a gente aguentou um, o que seria outro...?

Foi entao que o vizinho da direita se rendeu as propostas e ali, pasmem, seria mais um predio!

Choviam propostas para comprar nossa casa, mas ela era parte da gente... e a gente dela.

O transito já havia mudado completamente... de pouco movimentada, virou via de acesso. Eu passava meia-hora vendo o portao da minha casa, mas impossibilitada de chegar até lá... e quando iamos entrar, ainda recebiamos buzinadas raivosas e gestos desagradaveis... por vezes até cheguei a ouvir alguns gritos, mas pode ter sido só impressão.

Foi quando resolveram construir o viaduto que demos a martelada final... era impossível continuar lá.

Assim que assinaram o contrato de venda, os novos "donos" nos enxotaram de lá... nos deram tempo recorde pra sair e encontrar qualquer outro lugar, que nao aquele, para nos abrigar.

Saimos, entao, às pressas... sem despedidas, como sem-terras maltrapilhos.

Colocamos tudo que tinhamos dentro de caixas, carros, caminhoes... e partimos sem olhar para tras. Ela, sem a gente, nao era mais a mesma... uma carcaça, um esqueleto, um corpo sem alma... estava morta.

Foi assim que ela passou de lar a escombros... de jardim a concreto... de amor a dinheiro.






Chuva de patos

Não lembro de nada que me tenha sido tao engracado quanto ver idealizado uma "chuva de patos"... lembro de estar assistindo um dos meus desenhos (atuais) favoritos, com uma das minhas companhias favoritas, numas das minhas situacoes favoritas...

Aquilo me soou fantastico... tantas coisas pra passar pela cabeca, a imagem de chuva de patos era incrivelmente improvavel... Nada melhor pra desejar, nao? coisas impossiveis...

Eu ri por dias, se nao meses... Toda e qualquer ocasiao era o suficiente para me remeter aquela cena. Alegria atrai alegria...

Nao importa muito o tamanho da alegria, o que importa é o quanto voce a sente... Alegrias pequenininhas podem fazer cócegas no nosso esofago, e nos fazer sorrir, escondido, com o canto da boca... sozinho... num café. Grandes alegrias podem nos nocautear imediatamente e depois... viram lapsos.

A alegria anda com a tristeza... pq só uma pra nos provar que tivemos a outra... ou que somos capazes, de fato, de te-la algum dia.

É o supiro mais profundo e a lealdade mais oculta.
Voce se diz desistir e desacreditar dela, mas vive procurando esse ser; feliz...

Certo que a felicidade é aquele momento, ali... voce vive e, de repente, ela vai embora. Voce esquece tudo aquilo que um dia coloriu, tudo é pastel e sem gosto.

Tudo é num instante, preciso. Desejar ser feliz eternamente é utópico, entao... eu desejo chuva de patos!



Copos de alumínio

Fazia tempo que eu não tomava água num daqueles copos de alumínio...

Quando sede pede um copo d'água bem gelado, a garganta pulsa numa peristalse seca... na hora que bate na superficie metálica do copinho; o esbranquicado crescente... no primeiro gole, quando toca o copo, já sente a frieza do material e o liquido refrescante em perfeita combinação...

saciedade e nostalgia...

Essa sensação é exatamente a mesma de quando, na casa do meu avô querido, eu tomava agua num desses copos. Ele guardava, estrategicamente, dentro do freezer... brilhante!!

É dificil explicar uma coisa que foi sensação ... uma forma do teu corpo responder à um estímulo. Mas a verdade é que o sentimento de satisfação vem sempre acompanhado da nítida lembrança dele... dos momentos mais simples da nossa convivencia. Da sintonia dos olhares surrealmente sorridentes...

Era o copo dele, no lugar dele (congelando), como tudo dele era no lugar dele. Qualquer desvio, qualquer falha, seria notado. A lucidez mais insana que já pude vivenciar... sabia de tudo, qualquer assunto. Era de uma dureza incrivel e uma sensibilidade admirável...

Métodos eram muitos... ler a bíblia todos os dias, andando pelo corredor e cruzando com a unha o salmos que já haviam sido lidos. Banhos demorados. Leite de rosas. Leituras cotidianas e programadas.
A telvisão era toda previamente planejada, horarios definidos. O lanche era no horario do jornal, o volume era no mais alto e a atencao redobrada no que era dito. Passava a mesma quantidade de requeijão (colocado na borda do prato) nos mesmos sanduiches grelhado com queijo por cima... colocando a mesma quantidade de nescáfe, com a mesma colher, na mesma quantidade de leite.

Na hora de dormir o meu colchão era colocado do lado da cama deles. Pra eu nao passar nenhum minuto longe... eu adorava o cheiro da madeira no quarto, a luz fraca vinda do lado dele e o lencol fininho que me bastava aquecida... Me lembro de muitas vezes lutar contra o sono pra ficar observando, por baixo da cama, o amarelo-opaco que provinha só daquela direita do quarto... e ouvia minha vó ressonar, com o braço por cima dos olhos...

Até hoje me pergunto o que ele viu em mim... de onde vinha tanto amor se tudo que ele conheceu foi a minha parte quando eu nao sabia valoriza-lo devidamente... que hoje, tantas coisa eu queria mostrar e dividir e perguntar. Me descontrola o peito pensar que perdi tempo... que muitas vezes ele quis me mostrar, me ensinar... mas a ingenuidade me fechava qualquer entrada para o tudo que ele podia me passar...

Eu podia ter aprendido muito mais... por tudo que ele foi pra mim!

Ele foi meus passos de dança, bochechas coladas e meus sonhos no colo. Foi os assobios afinados e o bom gosto musical. Foi os filmes antigos bem explicados. Os gritos furiosos com o futebol...

Sei que ele podia me fazer melhor, se eu pudesse mostrar o que eu sou...

Eu só queria que tivesse sobrado mais tempo pra aprender a ser mais como voce, vô.

Mas pelo menos uma coisa eu aprendi... o meu copo de alumínio vai ficar no congelador!

Manaus, manaus

O manauense é um povinho complicado. De tudo arranja um motivo pra reclamar...

Se chove, reza a Deus pra parar de chover. Se faz Sol, procura o diabo pra culpar pelo inferno.

Amanheceu mais nublado? pode contar que metade da população sai de jaqueta, pullovers e afins, manda desligar o ar-condicionado da sala porque ta "frio"... e quando dá onze horas ta todo mundo de manga enrolada e se abanando.

Sem contar que tudo fazem se arrastando, não importa o quanto estamos pagando pelos serviços, sempre parece que estão nos fazendo um favor. Chego até a ficar constrangida!!

Os mais regionais são os mais intrigantes, porque além de todos os aparatos que um bom manauense detém, ainda vem com uns "extras", originais de fábrica...
É fácil identificar, todo caboco vero tem a voz anasalada, sua mais que o normal e pra qualquer lugar que ele vá apontar ele utiliza o lábio inferior.
E ainda insistem em dizer que são "manauara"... até o shopping nomearam assim!

Uma das patologias mais populares entre essa espécie é a falta de senso do ridículo... não é nada difícil ver modelitos microscópicos em corpos macro +10. Quisera eu ter tanta auto-confiança...

Justiça seja feita. Não podemos negar que é um povo que sabe se divertir... Ora! Há algo mais maravilhoso do que ir à ponta negra num domingo, com um magnifico carro "tunado", uma churrasqueira portátil, sunguinha e barrigão de cerveja de fora?
Lógico que a poluição sonora de diversos tipos de forró/boi/axé (tocando ao mesmo tempo) passa batido ao se deparar com mulheres espetaculares passando blondor em pleno calçadão... uma beleza!

É... o sol é mais quente que o usual, o clima palpavelmente úmido... mas nos rende dias lindos, com céus em tons de azuis diferentes a cada momento e um por-do-sol de dar inveja a muito europeu azedo...

Do rio eu tenho medo... sabe-se lá o que não existe naquela escuridão. Mas é inegAvelmente deslumbrante e (os desabrigados que me perdoem) ainda mais nas cheias.

Eu não AMO Manaus, tão pouco tenho ciúmes... mas, enquanto nao consegui me desgarrar, vou tirando proveito das peculiaridades... de uma forma ou de outra!

Ha 55 anos...

oje meu pai faz 55 anos... destes, 25 posso falar com propriedade!

Foi um plano mal elaborado, uma contagem mal feita e duas cabecas muito aterafadas, o motivo da minha concepcao. Ele tinha 30 anos e 29 dias quando fomos apresentados (propriamente)... e acho que ele nao imaginou tudo o que aconteceria até hoje.

Minha infancia foi cheia de saudades e expectativas de chegadas. A ansiedade na porta do aeroporto, as corridas para ver quem abracava primeiro.
Papai sempre foi lazer.


Quando o dever chamava, tudo certo... sem problemas me levar até a escola de manha cedo, dificil era lembrar que precisava pentear o meu cabelo! Mas nada que um pente da varig, estrategicamente deixado no carro, nao resolvesse... ou quase.

Foram varias apresentacoes. De danca, de piano, de teatro, de sapateado, de violao... e muita, muita paciencia.

Os discursos eram elaborados e cheios de moral... Meus olhos, sempre atentos, demonstravam compreensao. Mas a fome na africa nao era o suficiente para me convencer a comer um arroz amarelo... "nao tem arroz branco, nao?".

Tudo era sonho... e nao só pra mim, para os meu amigos tambem. Imagina, só... filha do "Tio Acram", aquele que aparece na televisao e leva as criancas pra Disney. Gente fina!
Perdi as contas de quantas vezes me cantaram o jingle (e ainda cantam)... "o tio acram quer
fazer...".
E as brincadeiras? "você chama ele de tio?", "como ele é pai? ele só pode ser tio!"... Confesso que me divirto até hoje.

Ele é meu parceiro de dança ideal. Minhas lembrancas mais gostosas; nós dois, dancando sem motivo na sala de som. Foi uma vida de treino para a valsa perfeita nos meus quinze anos... inesquecível! Rodopios e sintonia... E isso já tem dez anos!!

A partir daí tudo parece ter acontecido muito rápido (bem que dizem que depois dos quinze o tempo voa).
Sucessões de fatos, deslizes, perdões, aprendizados, lições... até que... o susto!
Correria no meio da madrugada, incertezas e medo (muito medo). Num repente meu super-homem estava indefeso e frágil... como podia ser?
Por mais de um mes não ouvi o som da voz dele...Depois do sono prolongado e de muitas explicações, enfim podiamos conversar de novo...

Passou de tubos, fios, agulhas, máquinas e dor, para o picolé de limão mais gostoso da historia. E ele mal aguentava a própria mão.
Depois de tantos sonhos e conquista, tudo que ele queria naquele momento era água, suco e voltar para casa...

Cada um sabe como se sentiu no momento que ele atravessou o portão de desembarque... de cadeira de rodas e 20 quilos a menos... Eu? Voltei a crer!

Hoje ele luta contra a balança, trabalha de havaiana e tem a certeza de bons amigos. Eu... quero beija-lo todos os dias, abraça-lo todas as horas e reviver este dia mais 55 vezes!

No tom

Enquanto me divertia entre os tipos mais frenquentes de neoplasias pulmonares, fui surpreendida por uma visitante inesperada - a Dona Aranha... e, pasmem, ela subia pela parede!!


Nao qualquer parede, a minha parede... onde eu encosto minha mesa, colo meus post-it de lembrete, auto-ajuda, recados e materia, minha "thinkin' wall"...


Ela era uma intrusa!


Minha respiracao foi uma ultima insuflacao, me movimentei furtivamente e corri para a porta... andava de um lado para o outro, entre as opcoes de: eu mesma esmagá-la e correr o risco da mae dela vir atras de mim em busca de vigança... jogar inseticida e ela nao morrer e pular no meu cabelo e me deixar histerica e me debatendo e sentindo-a andar por toda minha superficie corporal... ou chamar por socorro - ufa!


Sai em busca de "herois". Qualquer ser viril o suficiente para acabar com aquele monstro (de 9mm) que estava prestes a sugar toda a minha vida... Meu coracao disparava, eu nao tinha tempo a perder.


Confesso que foi preciso mostrar 3 vezes o exato lugar de onde ela me olhava sedenta... mas nao mais que uma polpa digital para transforma-la num enroladinho de nada. Isso é o que dá ser "teimosa e desobediente"?

Dona Aranha

Enquanto me divertia entre os tipos mais frenquentes de neoplasias pulmonares, fui surpreendida por uma visitante inesperada - a Dona Aranha... e, pasmem, ela subia pela parede!!


Nao qualquer parede, a minha parede... onde eu encosto minha mesa, colo meus post-it de lembrete, auto-ajuda, recados e materia, minha "thinkin' wall"...


Ela era uma intrusa!


Minha respiracao foi uma ultima insuflacao, me movimentei furtivamente e corri para a porta... andava de um lado para o outro, entre as opcoes de: eu mesma esmagá-la e correr o risco da mae dela vir atras de mim em busca de vigança... jogar inseticida e ela nao morrer e pular no meu cabelo e me deixar histerica e me debatendo e sentindo-a andar por toda minha superficie corporal... ou chamar por socorro - ufa!


Sai em busca de "herois". Qualquer ser viril o suficiente para acabar com aquele monstro (de 9mm) que estava prestes a sugar toda a minha vida... Meu coracao disparava, eu nao tinha tempo a perder.


Confesso que foi preciso mostrar 3 vezes o exato lugar de onde ela me olhava sedenta... mas nao mais que uma polpa digital para transforma-la num enroladinho de nada. Isso é o que dá ser "teimosa e desobediente"?

Cafe

Desde pequena tenho loucura por cafe. Nao é pra menos... durante toda minha vida, todos os lugares e pessoas compartilhavam do mesmo gosto.

Aprendi cedo como preparar; água fervente, pó e um pouquinho de acucar (segredo do papai). Eu prefiro o meu forte, sem acucar e recem-feito... Esse lance de reesquentar, repassar, reaproveitar, nao me apetece.

O cheiro ativa as papilas gustativas ate de quem nao é fã. Em mim, me traz saudades e boas lembrancas... os beijos do meu gidô, a sala do meu pai na agencia do centro, o lanche pontual as 18hrs na casa da minha vó querida, os movimentos precisos e metodicos do meu vôzinho.

É a cara de fim de noite em familia. Meu nome vem a tona junto com o seu significado, e seguido logo do pedido gentil dos patriarcas: kahwah. Me prontifico sempre com brincadeiras e sorrisos. Vale a pena pelos elogios sinceros e carinhosos ... café com amor.

Companhia ideal para as viradas olimpicas de estudo... encho minha mug com o mais negro e puro extra-forte, sento, e só levanto pra buscar outra "dose".

Tá no sangue, árabe e espesso. Somos baristas por designio divino... um dom que nao rouba ou aprende... herda!

Missa de St. Antonio

Ontem minha vó me ligou: Filha, - dizia - amanha é a missa de St. Antonio, quer ir?. Meio nocauteada pela surpresa momentanea, nao exitei em dizer que sim, ate porque já é quase um reflexo à quase tudo que ela me pede. Ela me tem na mao...

Logico, fora a missa, ainda tinha uma imperdivel procissao, as 17hrs, que "nem andava tanto". Me imaginei logo, velinha na mao, cantando hinos de louvor e morrendo de medo que chegasse alguem querendo se aproveitar da boa vontade dos "fieis". Mas gracas àquele que nos deveriamos seguir, amanheceu chovendo!

Hoje o discurso foi um pouco diferente, e decidimos que só a missa já estava de bom tamanho.

Fico imaginando a reacao de Deus, lá de cima, me olhando. Ele com certeza vai tomar um susto (gosto de pensar que estou fazendo uma surpresa pra ele)... Todos os anjos e santos vao ficar realmente intrigados, afinal, depois de tanto tempo!... St. Antonio deve me perdoar por incidentes anteriores, e se sentir genuinamente querido por mim. É, acho que ia ser o "comentario" no ceu - levo muito à serio adesivos de parachoque que dizem: "voce é muito importante para Deus".

Posso ver a Luz celestial sobre mim, holofotes abencoados... todas as atencoes! Tenho que preparar um bom discurso. Nao quero desaponta-los...

Primeiramente, agradecimentos... muitas gracas alcancadas, licoes aprendidas. A seguir, devo listar meus pecados. Certo! Nesse momento, esparramada no sofá com uma caixa de bem-casados... Senti um lapso de vergonha, pecava pela gula. Mas logo percebi que se nao fosse pela gula, seria pela luxúria. Entao... o que me conceder mais perdao. Enfim, os pedidos. E hoje eu to precisando ser atendida. Frases bem articuladas, nomes bem pronunciados, pra nao ter confusao. E seja o que Deus quiser!

E pra completar, voce ainda ganha um paozinho com as bencaos de St. Antonio que te promete fartura e coisas boas. Uma lembracinha, pra comer em casa.

Acho que posso ir em paz... e que o Senhor nos acompanhe. (Amem).

Os ditos hormonios

Pesquisas cientificas ja apontam outras funcoes pra esse "admiravel" hormonio feminino... mas nao me importaria que tivesse doses menores em mim, mesmo que isso me acarretasse um pouco menos de acuidade auditiva...

Estrogenio e progesterona... dupla infalivel na colocacao de gorduras localizadas, emocoes exagerada e explosoes mensais de raiva, calor e vontade... e poe vontade!

É vontade de comer tudo, de preferencia doce... chocolate... bolo com calda de chocolate e pedacos de chocolate com um leite achocolatado com chocolate derretido dentro de mais chocolate!

É desejo puro... de todas as formas, maneiras e estilos.

A natureza conspira para o acasalamento e me poe em chamas, exalando toda a feminilidade hormonal do meu corpo fertil, visando aticar alguma testosterona alheia... meu proprio cio.

O instinto imaculado me oscila entre furia e melancolia... um joguete que desperta a fera que em mim dormia.

Sou o campo de batalha de uma revolucao hipofisaria, exercitos marcham ao longo das minhas arterias, buscam os receptores que mais lhe agradam... e me fazem um marionete ridiculo da biologia!

Eu uso oculos

Miopia é uma condicao clinica, fato! Só quem tem sabe como é dificil conviver com isso... Logico, em graus mais elevados que os meros -0,5 cansados.

A minha comecou com erros no caderno de portugues. Enxergar o quadro era realmente um esforço doloroso... minha cabeca que o diga!
Reconhecendo minhas limitacoes, avisei minha mae, que custou a acreditar que nao era uma simples vontade de ser diferente (vai entender)...

Depois de varias provas que minha visao nao era como a dos meus coleguinhas, fui ao oftalmologista, que confirmou meus -0,75 iniciais... ok, nao era muito. Mas enxergar formulas fisicas, num quadro, as 7:30 da manha... eu precisava de uma ajudinha extra!

Recomendacoes, receitas e partimos rumo à otica para escolher meu novo "acessorio".

Fase de adaptacao: espanto, brincadeiras e perguntas dos amiguinhos adjacentes à minha mesa escolar cativa.
E lembrar que agora eu tinha MAIS uma coisa pra levar?
E, meu Deus, parece que esse artigo vem com imãs acoplados com alta atracao por bundas... pelo menos uns 3 ficaram tortos ou sem lentes devido a sentadas desatentas!

O tempo foi passando e a cada retorno o medico me dava uma nova receita e, o pior, um novo grau!

Passei a precisar deles para mais do que umas simples "ajudinha" na hora de ler a legenda de um filme em alemao no cinema...

Fiz 18 anos e no outro dia estava na porta do Detram para tirar a carteira... psicotecnico - ok, legislacao - ok, teste medico... ops! Bem, agora eles eram uma necessidade constante...

Mas ainda me fazia de auto suficiente e, quando saia, ia sem oculos, pra nao "me queimar"... o problema era que, alem de passar por metida e esnobe (afinal, como se cumprimenta alguem de longe se voce nao sabe que a pessoa esta la?) Eu ainda acabava precisando de amigas para me ajudar a paquerar ... ou acabava paquerando errado (feios!).

Tentei trair o "movimento nerd" e aderir as inovadoras lentes de contato... gelatinosas, confortaveis... nem tanto! a sensacao constante de cisco nos olhos nao faz minha cabeca... e fora a fonte constante de infeccoes oculares. Deus me livre! Perdi varios lados e, devido a coceiras enfurecidas, ficava "olheta"... vendo bem de um lado só.

Foi quando me rendi a parceria inseparavel, e ate charmosa, dos oculos. A reacao do "publico" é diversa... uns amam e elogiam, outros encaram como falta de vaidade...
Pra mim é uma necessidade ... enxergar é mais bonito.

Mae, quero ser astronauta!

Essa noite, enquanto olhava a lua pensei: "nossa, deve ser fantastico ter essa visao, de lah" (tipico?)... mas ... e pra chegar la?? que medo... me senti completamente presa nessa rocha planetária, dentro de uma bolha atmosferica intransponivel...


E se eu quisesse ser astronauta? Como seria?

Eu adoraria conhecer um, saber qual a visao dele disso tudo... afinal, ele jah saiu de tudo que "há entre o céu e a terra". Nao seria isso o destino de tudo... o depois disso? Imagina, ver do ponto de vista de Deus (?), "acima de tudo e de todos"... Acho que deve causar mudancas em alguns pontos de vista... ou nao?

Bem, minha mae com certeza censuraria... imagina, se medica eu ja nao ia ter tempo pra "marido e filhos", que dirá tendo que ir trabalhar, bem ali, no espaco! Me mandaria descer no ato.

Nao sei bem o que diria meu pai... se é que diria alguma coisa. Com certeza, nao antes do tempo...

De qualquer forma, acho que me viro melhor sendo medica... ainda sou adepta da gravidade. E olha que eu sei o preco que eu vou pagar por isso!


Vou me contentando por enquanto com essa vista daqui, vendo nuvens de baixo em forma bomba atomica, jacares, dragoes e a lua "de cabelo" ! E quanto ao sr. astronauta, concedo uma parte de inveja... "deve ser fantastico ter essa visao, daih..."

eu com as 3

"Nos somos quatro... eu com as quatro...", ou melhor, tres... Se puxa o "r", se enrola ou se chia, sempre acaba na mesma sintonia.
Me doi o pescoco nos meus gigantescos 1,60m para acompanhar os poucos 1,78m loiros e deslumbrantes de uma.
Me abasteco de muita duracel pra ser pareo nos 220V constantes de outra...
Somos vinh0, nuttela e muita historia pra contar. Gargalhadas altissimas, tiradas rapidas e conversas ate altas horas...
Pouca paciencia pra umas, muita pra outras...
Dividimos quarto, cama, saudade e distancia...
Fomos os kilos a mais bem justificados, as bebedeiras fenomenais e as disparidades mais exuberantes da historia.
Eu o longuente classico, a chatice insuportavel, as implicancias rotineiras e as complicacoes amorosas eternas...
Uma na piruice absoluta de cores, curtos e brilhos, voz alta, gestos amplos e sorriso inspirador... Complicacoes, confusoes, mas "poR Deus", acaba tudo bem...
A outra consegue transformar o jeans no mais exuberante estilo, desperta minha "inveja" de morena e me prova que amor de verdade existe... minha admiracao notavel!

Elas sao minha saudade doida, que me faz largar minha oca e atravessar o pais com desculpas esfarrapadas pra assassinar essa maldita...

Elas sao minha morte de vespera, que me acaba a festa só de pensar que vamos nos separar.

Encantamento

Sintomas de paixao, os pes nem encostam o chao...
Se orelhas grandes, pernas curtas e cabelo rebelde... o que me importa?
Te acho fantastico...
Só de pensar me arranca sorrisos, ou mais, gargalhadas...
Minha barriga revira e sinto como se estivesse com a pior das viroses.
Sera doenca? ... Nao quero me curar.
Em todos os lugares, todas as coisas, todas as pessoas me remetem a esse "mau hábito"...
Parece mania!
Dias mais salgados na minha vida insossa.

Me revela teu truque. Que magica é essa... que me deixa reversa, e nao paro de pensar.
Eu hein, pra lá, com essa uruca, to ficando biruta... sera que passa se chutar??

Uma simples alegria

Nao... nao foram rosas, nem serenata, tao pouco um poema repleto de juras de amor eterno...
Apenas uma noite prolongada, entrecortada por risos e nonsenses, que lhe caem muito bem.
Dormi feliz, sonhei coisas que nao me lembro, e acordei com uma preguica monstruosa... mas leve, revivendo tudo o que foi dito, as tiradas, brincadeiras e ateh as eporadicas sacanagens...
Me vi corar por me sentir tao infantil. Adolescente tipica, que se enrola, encabula e morre só de pensar que "ele falou comigo".
Meu coracao bate mais devagar hoje. Posso pensar em vc como realmente é... sem desejar, sem querer, sem buscar...
Voce existir me deixa mais ... sossegada.

St. Antonio

Tudo comecou com uma conversa amigavel, coloquei meus problemas, sugeri solucoes e esperei alguma providencia. Apos uma longa espera, nada havia mudado, senao o foco. Mas a situacao permanecia.



Achei, entao, que conversa nao estava surtindo efeito e comecei a me indagar o que poderia fazer para ser ouvida, afinal, tantas ja haviam sido. Apelei pra "reza braba". Disse por A + B, o que queria, como queria, QUANDO e porque queria... e continuei a espera, dessa vez de joelhos!



Passaram-se os meses e ainda me via só e, o pior, sofrendo!! Me senti entao ignorada por aquela imagem minuscula, que me tinha sido regalada em um casamento (o que me fez acreditar mais ainda no seu poder), e me olhava desdenhozamente do alto da prateleira junto com seu amigo, Jesus Cristo. Era como se rissem de mim...



Aquilo comecou a me "zangar" e decidi que a conversa tinha que ir mais alem, e parti para as ameacas. (vai que funciona!). Disse, com muita firmeza, que se nao acontecesse dessa vez, no prazo "x", eu iria coloca-lo amarrado de cabeca para baixo. Admiti ser uma atitude um tanto drastica e radical, mas deixei claro que essa nao era minha unica "carta na manga".

A espera ja estava me consumindo e eu nao aguentava mais a situacao. Entao, peguei o pequeno, olhei seria e disse que nao precisava ser dessa forma, mas que iria, sim, afoga-lo na garrafa de cachaca e deixa-lo embriagado e se afogando ate que ele resolvesse o meu caso. Era tudo muito injusto, porque soh comigo nao funcionava?

Volta e meia dava uma olhadinha para ver a situacao do "bendito" no fundo. Deus me livre mata-lo ali dentro. Ate conseguir outro...

O bichinho estava quase desbotando quando vi que aquela medida ainda nao o amolecera o coracao, e ainda estava esperancosa e angustiada.

Com lagrimas nos olhos, peguei a pequena escultura, jah desfigurada e cansada, e arranquei com toda forca e impiedade a crianca que carregava em seus bracos. Havia me tornado uma sequestradora, e nao de qualquer pessoa... do salvador do mundo! Apenas aquele homem, fraco e sem forcas, poderia resgata-lo, atraves de um simples ato: Atender as minhas preces.

Muitas noites se passaram sem que eu tivesse qualquer contato com o responsavel pela vitima. Nenhum sinal, nenhuma manifestacao. E carregar aquele fardo era insuportavel, eu mal conseguia dormir pensando nas consequencias com O Todo Poderoso.

Foi entao que decidi devolver Menino Jesus para os bracos de Santo Antonio, coloquei-o de volta na companhia de J.C. na prateleira superior, e continuei a observar, com duvida e decepcao, as imagens que me prometiam salvar.

* Por seguranca, acendi uma vela de 7 dias pra selar as pazes.

Num domingo a tarde

Acordei de sonhos distantes, esperei os primeiros sinais de movimento... minha mae bate a porta. É domingo!

Busca daqui, chama dalí, acorda, fala alto, briga, ri, abraca, beija... todo domingo.
Seja chuva, sol, quente, morno (nunca frio)... compromisso eh compromisso, ainda mais quando esta no quarto ao lado. "nao poooosso, domingo eh com a familia"... mesmo que as vezes se tenha vontade de "variar"... Nunca tem a mesma graca.
Bem, as vezes varia um pouco como fica nosso domingo... depois do almoco podemos ficar juntos ate o jantar, que sem duvida acabaria em algo bem engordativo como pizza hut, picanhas ou coisas deliciosas. Ou cada um digere o que deve, onde acha que deve.
Dia de kibe do gidô, cedo, quentinho e com "molhinho gostoso" que ele sempre esta disposto a fazer; azeite, limao e "pimenta de aruba". Imbatível!
Acordei com o telefone tocando? Minha vó: "fiiilha, tua mae ja acordou?"... (ora, se eu ainda estou dormindo... imagine ela). É uma das melhores formas de acordar.

Após ter revirado em meus pensamentos, buscando distracoes e lutando contra a fome domenical, que se prolonga costumeiramente ateh as 15hrs, meu pai me sauda com um "hoje vamos ao centro ver a cheia". O que é de surpreender, se tratando de uma pessoa que adora poder apenas atravessar a rua pra trabalhar, mesmo que isso signifique trabalhar o dobro. "serio?" - duvidei. E, para minha surpresa, era!

Entao, juntamos os "turistas" dentro do airtrack. Papai (dirigindo), mamae, eu, Beta e Vovó. (e um vazio inexplicado de uma ausencia). E fomos rumo ao centro. Meu pai dominava todo o caminho, estava em casa. Eu perdida e deslumbrada, com uma maquina a registrar aquele momento. Todos nos, fora, num domingo a tarde. Mamae e vovó entrando no clima da saudade. Foram historias, passado, lugares...

Estavamos nostalgicos, construindo um momento... uma lembranca. Senti como quando passo em frente a minha casa que hj sao predios... ou meu parquinho de barro que hj é uma imensa obra de concreto... as coisas vao, e a nós, só resta reviver.

Quero ser capaz de mostrar coisas e reviver memorias.