Céus! Eram apenas 8h30 da manhã, todos, inclusive eu, que estou iniciando minhas férias, estavam dormindo. Mas, pro meu avô, isso nunca fez diferença: o importante é que ele tinha serviço para ser feito e tinha que ser feito logo!
Meu avô é árabe. Sírio, para ser mais exata. Veio pro Brasil de barco com o meu pai ainda pequeno, e algumas moedas no bolso.
Viu macarrão pela primeira vez quando fez escala na Itália. Morreu de nojo achando que eram vermes e preferiu a “matula” que a minha avó havia trazido com pão e humus.
Nesta mesma situação, conta que meu pai, que corria de um lado para o outro do barco, escondeu os passaportes da família. Foi um sufoco. E vovô alega que papai tinha apenas um ano de idade, coisa que a gente duvida.
Foram vários os meios que o meu avô arranjou para ganhar dinheiro, quando chegou ao Brasil. Todos dignamente, claro, mas sempre com muito, muito suor.
Até hoje, aos 80 anos, ele é de uma disposição física invejável. Acorda antes de todo mundo, abre caixa, fecha caixa, e ainda tem tempo para um bom copo de vinho.
Passa o dia de olho nos trabalhadores, que sempre tem muito o que fazer. Faça chuva ou faça sol, ele sempre está construindo alguma coisa.
Não sei quando começou esse seu interesse pela engenharia / arquitetura. Todos os projetos e obras são coordenados por ele, pessoalmente. Tudo fica pronto rapidinho, e do jeitinho dele.
E a inspiração... Bem, supostamente, vem de sonhos... Se ele sonhar essa noite que quer um banheiro na sala, no outro dia, no fim da tarde, haverá um banheiro na sala e ponto final!
Qualquer desejo é uma ordem, quando o assunto é construir. Só tem que ter cuidado, como sempre, com o que ou como você deseja...
Meu avô segue as mais variadas tendências, mas sua preferida gira em torno de azulejos. Quanto mais, mais coloridos e mais variados, melhor!
E não tem problema se sobrar: ele sempre dá um jeito de encaixar o excedente na próxima obra, mesmo que não combine muito com o novo ambiente.
Se for um lugar um pouco mais escondido, corre o risco de virar um verdadeiro patchwork de azulejos.
O enfoque principal é a praticidade da obra. Se o degrau ficar alto demais ou o telhado curto, não importa, isso é o de menos. O importante é ficar pronto e o serviço terminar rápido, no menor tempo possível.
Depois se reajusta conforme a necessidade...
Se chover mais forte e começar a alagar a área de convívio, é só puxar um pouco mais o telhado e está tudo resolvido.
São as regras da "nova escola de arquitetura de Mirsharshur", da qual o vovô é fundador e único aluno. Mas em breve estaremos abrindo vagas aos interessados.
Cena típica é vê-lo sentado numa cadeira, sob um sol abrasador, de boné, bermuda e camisa pólo, supervisionando os pedreiros pendurados nos andaimes.
Dizem que o bode só engorda sob o olho do dono. Pra ele, esse adágio popular tem valor de lei.
Quando ele desconfia que a obra está demorando mais do que o necessário, simplesmente coloca a mão na massa.

Volta e meia, se a cadeira estiver vazia, pode procurar que o danado tá furando alguma coisa ou martelando qualquer outra.
Seu bronzeado faz inveja a muito golfista milionário e sua vitalidade é digna de um atleta campeão de triathlon.
Nós o chamamos de gidô, que sinifica vovô em árabe. Ainda hoje ele fala português com um sotaque arrastado e anda esquecendo um pouco do árabe.
Meu irmão brinca que, desse jeito, ele vai acabar ficando mudo.
Se faz de desentendido só quando convém, essa é vantagem que ele tira por ser mais velho e estrangeiro. Ele é assim, cheio de coisas pra fazer e sempre em regime de urgência.
Projetos prontos, projetos novos, tudo a 80 anos por hora. E sabem o que ele diz? “Eu nem sinto a minha idade”.
Puro sangue árabe!

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