sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Nova escola de arquitetura de Mirsharshur

Hoje eu acordei ao som de toc-toc, bate-bate e fura-fura no telhado. Quando saí do quarto, de cara amassada, para ver o que acontecia, me deparei com o meu avô, de furadeira na mão, gritando para os pedreiros que pendiam de andaimes no telhado.

Céus! Eram apenas 8h30 da manhã, todos, inclusive eu, que estou iniciando minhas férias, estavam dormindo. Mas, pro meu avô, isso nunca fez diferença: o importante é que ele tinha serviço para ser feito e tinha que ser feito logo!

Meu avô é árabe. Sírio, para ser mais exata. Veio pro Brasil de barco com o meu pai ainda pequeno, e algumas moedas no bolso.

Viu macarrão pela primeira vez quando fez escala na Itália. Morreu de nojo achando que eram vermes e preferiu a “matula” que a minha avó havia trazido com pão e humus.

Nesta mesma situação, conta que meu pai, que corria de um lado para o outro do barco, escondeu os passaportes da família. Foi um sufoco. E vovô alega que papai tinha apenas um ano de idade, coisa que a gente duvida.

Foram vários os meios que o meu avô arranjou para ganhar dinheiro, quando chegou ao Brasil. Todos dignamente, claro, mas sempre com muito, muito suor.

Até hoje, aos 80 anos, ele é de uma disposição física invejável. Acorda antes de todo mundo, abre caixa, fecha caixa, e ainda tem tempo para um bom copo de vinho.

Passa o dia de olho nos trabalhadores, que sempre tem muito o que fazer. Faça chuva ou faça sol, ele sempre está construindo alguma coisa.

Não sei quando começou esse seu interesse pela engenharia / arquitetura. Todos os projetos e obras são coordenados por ele, pessoalmente. Tudo fica pronto rapidinho, e do jeitinho dele.

E a inspiração... Bem, supostamente, vem de sonhos... Se ele sonhar essa noite que quer um banheiro na sala, no outro dia, no fim da tarde, haverá um banheiro na sala e ponto final!

Qualquer desejo é uma ordem, quando o assunto é construir. Só tem que ter cuidado, como sempre, com o que ou como você deseja...

Meu avô segue as mais variadas tendências, mas sua preferida gira em torno de azulejos. Quanto mais, mais coloridos e mais variados, melhor!

E não tem problema se sobrar: ele sempre dá um jeito de encaixar o excedente na próxima obra, mesmo que não combine muito com o novo ambiente.

Se for um lugar um pouco mais escondido, corre o risco de virar um verdadeiro patchwork de azulejos.

O enfoque principal é a praticidade da obra. Se o degrau ficar alto demais ou o telhado curto, não importa, isso é o de menos. O importante é ficar pronto e o serviço terminar rápido, no menor tempo possível.

Depois se reajusta conforme a necessidade...

Se chover mais forte e começar a alagar a área de convívio, é só puxar um pouco mais o telhado e está tudo resolvido.

São as regras da "nova escola de arquitetura de Mirsharshur", da qual o vovô é fundador e único aluno. Mas em breve estaremos abrindo vagas aos interessados.

Cena típica é vê-lo sentado numa cadeira, sob um sol abrasador, de boné, bermuda e camisa pólo, supervisionando os pedreiros pendurados nos andaimes.

Dizem que o bode só engorda sob o olho do dono. Pra ele, esse adágio popular tem valor de lei.

Quando ele desconfia que a obra está demorando mais do que o necessário, simplesmente coloca a mão na massa.


Volta e meia, se a cadeira estiver vazia, pode procurar que o danado tá furando alguma coisa ou martelando qualquer outra.

Seu bronzeado faz inveja a muito golfista milionário e sua vitalidade é digna de um atleta campeão de triathlon.

Nós o chamamos de gidô, que sinifica vovô em árabe. Ainda hoje ele fala português com um sotaque arrastado e anda esquecendo um pouco do árabe.

Meu irmão brinca que, desse jeito, ele vai acabar ficando mudo.

Se faz de desentendido só quando convém, essa é vantagem que ele tira por ser mais velho e estrangeiro. Ele é assim, cheio de coisas pra fazer e sempre em regime de urgência.

Projetos prontos, projetos novos, tudo a 80 anos por hora. E sabem o que ele diz? “Eu nem sinto a minha idade”.

Puro sangue árabe!

De geracao em geracao

Detetizacao 'e um porre, e nao tem quem nao concorde. Ainda mais pra mim, que pago pra nao sair de casa e dobro a oferta pra nao me tirarem... Mas, nas atuais circunstancia, detetizar era preciso!

Eu precisava ficar uma hora fora de casa. E a noticia veio de surpresa justo na hora em que estava recebendo amigos. Resolvemos que eu levaria as minhas parafernalhas para a casa da Beta e eu preparia uma das minhas especialidades - brownies, para passar o tempo...

Saimos em carreata rumo a ponta negra. Uma longa viagem, na minha opiniao que sou acostumada a morar perto de tudo. No caminho eu vinha ouvindo meu namorado reclamar da geracao em que ele estava, que nao era a geracao do Ipad - a revolucionaria inovacao de Steve Jobs.

Quando chegamos, o clima era funebre, nos despediamos de tudo que era do nosso tempo e aceitavamos, a duras penas, a nova geracao!

A conversa continuava passando por walkman, diskman, videocassete, videogames. Esse ultimo topico agucou a curiosidade do filho da minha amiga de 7 anos, que adora jogos!

Ele tem todos, de todos os tipos e sabe, melhor que eu, como funcionam...

Nao demorou muito pra ele voltar la de dentro com o DSI dele em maos. Aquilo que, para nos, nao passava de um gameboy metido a besta, esnobava as maravilhas dos graficos modernos para a surpresa dos dois matusalem da tecnologia. E mais, ainda tinha camera!

A cena era: o pequeno no meio com o artefato e os dois marmanjos maravilhados, um de cada lado. Entre um comentario inacabado e outro, expressoes de surpresa. Ate' eu, que estava distraida derretendo chocolate em banho maria, me rendi a curiosidade e fui me juntar a eles.

Era realmente impressionante!

O garoto se gabava de todos os jogos e videogames que ele tinha em maos e mostrava, com propriedade, as abilidades que havia desenvolvido durante tanto tempo de treino. Foi quando nos, os ultrapassados, comecamos a falar sobre o nitendo, SUPER-nitendo, gameboy. E nesse ponto, nos comecamos a esnoba-lo, pois ele nunca tinha jogado, e mais, nem tinha ouvido falar.

Falamos alto, um por cima do outro, atropelando palavras, lembrando nomes... Nostalgia!

Quando, num rompante de frustracao, o menino vira e diz: "Ei! E todas essas coisas que voces estao falando tem camera?"

Explodimos em gargalhadas. Eramos, de fato, outra geracao.

O velho ano novo...

Eu já tinha me conformado que o meu ano novo ia ser à base de sanduíche de atum e cupcakes de chocolate feitos por mim, nas dependências da minha casa. A família tinha decidido que ia fazer uma virada marcante no Tropical hotel e eu, macaca velha de ano novo em Manaus, discordei ao pensar no trânsito, sempre insano devido as comemorações oferecidas gratuitamente nesta área.


Meus pais estavam em Aruba, onde eu deveria estar também, mas por motivos capitalistas... venderam a minha vaga. Papai falou comigo pela internet e me convenceu que eu deveria ir... fazer um esforço. Eu, com peso na conciencia, convenci o meu irmão que deveriamos, de fato, ir.


Nos vestimos, entramos no meu carro com a Gisele (namorada do meu irmão) no comando e o Gabriel (meu namorado) me acompanhando.


Chegamos lá em pouco tempo. Foi quase inacreditável o mínimo de trânsito que pegamos. E eu comecei a acreditar que não tinha sido uma idéia tão ruim, assim, me tacar do parque 10 para a ponta negra.


Estacionamos o carro no prédio onde o pai da Gisele mantém um apartamento. Este se situa no início da PN e o tropical, como sabemos, é no final.


Começamos nossa caminhada alegres e satisfeitos quando começamos a notar que o trânsito fluia e que não tinha necessidade de estarmos andando a passos de triathlon a distância do que me pareceu uma verdadeira maratona em salto alto.


Reclamei o caminho inteiro. Do cansaço, dos meus pés, do calor, dos meus saltos...


De repente passou ao meu lado uma família esbanjando felicidade, caminhando. Cada membro carregada algo que parecia pesado como isopor cheio de bebida, churrasqueira, sacolas de compras. Eu virei pro meu irmão e exclamei: “e eu ainda reclamo...!”.


Bem, chegamos ao tal do reveillon. A vista era incrível. Barcos de todas as espécies e tamanhos tomavam a superfície do rio negro. Todos ansiavam pelos fogos, tão esperados.


Começa a contagem regressiva. Procurei meu irmão, que era a primeira pessoa que eu queria abraçar. COntamos juntos, abraçados, nós quatro. Era um feliz ano novo!


Abraços, beijos, olhos mareados e muitos sorrisos...


Decidimos em pouco que iamos embora. E a idéia da vinda era que, na volta, pegariamos um taxi até o prédio que, agora, parecia ainda mais longe!


Pedimos o taxi e a notícia que se seguiu não nos agradou nenhum pouco; o taxi não conseguia chegar até o tropical... o trânsito estava absolutamente parado.


Meu irmão começou a soltar fogo pelas ventas e decidimos que era melhor encararmos a caminhada de volta... o que, pra mim, pareceu uma via sacra.


No caminho o meu namorado tentava me distrair e eu, por minha vez, tentava me distrair dele. Ouvi por alto a Rita Lee cantar qualquer coisa que os meus pés não me deixaram entender bem.


Quando chegamos, nos deparamos com a realidade que não queriamos aceitar...


O prédio fica na parte de trás e o trânsito havia sido todo desviado de forma que o sentido de ida era pela rua de trás (do prédio) e o de volta era uma parte da avenida da frente (a qual tinhamos caminhado). Ou seja, nós teriamos que, inevitavelmente, fazer todo o contorno do trânsito.


As pessoas já estavam fora dos carros, conversando... perguntamos se estavam ali havia muito tempo e o rapaz rio e disse: “um pouco”...


Entramos no carro, ainda sob o comando de Gisele, às 2 am, e, só pra sair do portão do prédio, demoramos mais de 30 minutos. Quando abriu um brechinha meu irmão gritou “entra, Gisele, entra”... e nossos corações dispararam de alegria. Estavamos, pelo menos, na rua.


A partir daí começou uma longa jornada. Uma hora depois, nós haviamos andado poucos metros, e eu comecei a sentir uma dor de barriga incontrolável, daquelas que a gente se arrepia. O carro não andava e eu não conseguia pensar em nada além da minha vontade de ir ao banheiro...

Não aguentava mais quando saí do carro correndo e pedi ao porteiro de um prédio, pelo o amor de Deus, que me deixasse usar o banheiro... Ele, muito gentilmente, me acompanhou. Entrei correndo, a emoção era tanta que não consegui fazer nada além de um xixizinho tímido.


Quando saí, aliviada, apesar dos pesares. Notei que a piscina do prédio estava repleta de pessoas que me olhavam segurando o riso. Não perdi minha pose e continuei andando. Afinal, era uma emergência, questão de vida ou morte!


Ao chegar na rua tive uma surpresa: o carro tinha andado... e muito. Tudo bem, era uma boa notícia, mas lembre-se que eu acabava de sair do prédio e tive que andar (sim, andar de novo) até onde estava o carro.


Entrei, e começamos a conversar sobre as coisas que aconteciam em volta.


Fatos como o cara do palio da frente que paquerou a menina e conseguiu uma companhia pra noite. O rapaz do carro ao lado que tinha passado tanta colônia que estava incomodando meu irmão. O velho da dodge que ficava fazendo zig-zag e tentou furar nossa frente... tudo era motivo para comentários.


Ficamos parados ainda muito tempo entre o castelli e o mediterranée. Eu dormia e acordava e nós continuávamos nos mesmo lugar...


Enfim, abriram o outro lado da avenida e tudo começou a fluir mais. Os nossos nervos se acalmaram e não tardou muito para que chegássemos ao conforto do lar, e isso já eram 4 am. Mas, já dizia dorothy “não há lugar melhor que nossa casa”.


E esse é o bom e velho ano novo. Que seja feliz, então.


Minha casa.

Durante mais de 15 anos eu morei na mesma casa. E à medida que o tempo ia passando, ela ia mudando com a gente...

A principio era um quarto amarelo e azul, com estampas florais e camas de solteiro. Um balanco, feito por mim, pendia de um dos galhos do imenso ingazeiro que sombreava a faixada... a rua era duas maos, e o caminho até a escola mais curto.

A arvore foi cortada, dada a necessidade de fazer uma nova garagem... meu balanco, pro lixo.

O quarto do meu irmao era pequeno, mas era o mais divertido e cheio de coisas. Era como um esconderijo, voce entrava e andava de lado entre a cama e o movel (que, acreditem, existia!) abarrotado de eletronicos, caixas de som, novidades, etc. As prateleiras eram rebeldes, tomada por livros e objetos, sempre acertavam a testa de alguem...

A rua virou mao unica, em direcao a rua recife. Dar carona pros cativos ficou um pouco mais complicado, mas o pouco movimento na via permitia algumas "barbeiragens".

O quarto de hospedes abrigou muita gente, até chegar minha vó... e ai, era o quarto da vovó! Todos os outros ambientes (fora o quarto do meu irmao) eram bem mais amplos, mas alguma coisa sempre nos levava a ficar amontoados lá dentro...

A casa toda cheirava a madeira... era ventilada e tinha uma das melhores vistas da cidade.
Foi palco para festas, cenario para filmes e o nosso lar.

Em um dado momento resolvemos reformar; meu quarto passou para lilás, cama de casal, closet espacoso e cara de adolescente... meu irmao mudou do cubículo para um espacoso loftcom entrada independente... mamãe ganhou mais espaco para as roupas e papai menos bagunça.

Enfim, resolvemos fazer a piscina... Nossos domingos ficaram mais coloridos e cheios de vida. Papai colocava a melhor trilha sonora pro momento, gidô trazia kibe e outras delicias, e fechava o almoco com uma maravilhosa sobremesa da vovó...

Minha mae adorava o jardim. Molhar as plantas, plantar as plantas, colher as plantas... era o toque de tanto amor que dava vida àquele lugar.

Nosso canto comecou a virar o canto de muita gente... e começou o pesadelo.

Primeira obra; do predio atras... ouviamos tudo, do toque de entrar, de almoco, de volta, de sair e de hora extra. Furadeira, serra, martelo, caminhoes, poeira, alergia, dor de cabeca e furia... Foram sei lá quantos anos até ele ficar pronto, e bem em cima da nossa privacidade. Mas, pelo menos, dormir e respirar era possível.

Quando pensamos que nossos problemas tinham acabado, o vizinho da esquerda vende a casa e, pra nossa "alegria", iam construir um predio no local...

Ok, ok... a gente aguentou um, o que seria outro...?

Foi entao que o vizinho da direita se rendeu as propostas e ali, pasmem, seria mais um predio!

Choviam propostas para comprar nossa casa, mas ela era parte da gente... e a gente dela.

O transito já havia mudado completamente... de pouco movimentada, virou via de acesso. Eu passava meia-hora vendo o portao da minha casa, mas impossibilitada de chegar até lá... e quando iamos entrar, ainda recebiamos buzinadas raivosas e gestos desagradaveis... por vezes até cheguei a ouvir alguns gritos, mas pode ter sido só impressão.

Foi quando resolveram construir o viaduto que demos a martelada final... era impossível continuar lá.

Assim que assinaram o contrato de venda, os novos "donos" nos enxotaram de lá... nos deram tempo recorde pra sair e encontrar qualquer outro lugar, que nao aquele, para nos abrigar.

Saimos, entao, às pressas... sem despedidas, como sem-terras maltrapilhos.

Colocamos tudo que tinhamos dentro de caixas, carros, caminhoes... e partimos sem olhar para tras. Ela, sem a gente, nao era mais a mesma... uma carcaça, um esqueleto, um corpo sem alma... estava morta.

Foi assim que ela passou de lar a escombros... de jardim a concreto... de amor a dinheiro.






Chuva de patos

Não lembro de nada que me tenha sido tao engracado quanto ver idealizado uma "chuva de patos"... lembro de estar assistindo um dos meus desenhos (atuais) favoritos, com uma das minhas companhias favoritas, numas das minhas situacoes favoritas...

Aquilo me soou fantastico... tantas coisas pra passar pela cabeca, a imagem de chuva de patos era incrivelmente improvavel... Nada melhor pra desejar, nao? coisas impossiveis...

Eu ri por dias, se nao meses... Toda e qualquer ocasiao era o suficiente para me remeter aquela cena. Alegria atrai alegria...

Nao importa muito o tamanho da alegria, o que importa é o quanto voce a sente... Alegrias pequenininhas podem fazer cócegas no nosso esofago, e nos fazer sorrir, escondido, com o canto da boca... sozinho... num café. Grandes alegrias podem nos nocautear imediatamente e depois... viram lapsos.

A alegria anda com a tristeza... pq só uma pra nos provar que tivemos a outra... ou que somos capazes, de fato, de te-la algum dia.

É o supiro mais profundo e a lealdade mais oculta.
Voce se diz desistir e desacreditar dela, mas vive procurando esse ser; feliz...

Certo que a felicidade é aquele momento, ali... voce vive e, de repente, ela vai embora. Voce esquece tudo aquilo que um dia coloriu, tudo é pastel e sem gosto.

Tudo é num instante, preciso. Desejar ser feliz eternamente é utópico, entao... eu desejo chuva de patos!



Copos de alumínio

Fazia tempo que eu não tomava água num daqueles copos de alumínio...

Quando sede pede um copo d'água bem gelado, a garganta pulsa numa peristalse seca... na hora que bate na superficie metálica do copinho; o esbranquicado crescente... no primeiro gole, quando toca o copo, já sente a frieza do material e o liquido refrescante em perfeita combinação...

saciedade e nostalgia...

Essa sensação é exatamente a mesma de quando, na casa do meu avô querido, eu tomava agua num desses copos. Ele guardava, estrategicamente, dentro do freezer... brilhante!!

É dificil explicar uma coisa que foi sensação ... uma forma do teu corpo responder à um estímulo. Mas a verdade é que o sentimento de satisfação vem sempre acompanhado da nítida lembrança dele... dos momentos mais simples da nossa convivencia. Da sintonia dos olhares surrealmente sorridentes...

Era o copo dele, no lugar dele (congelando), como tudo dele era no lugar dele. Qualquer desvio, qualquer falha, seria notado. A lucidez mais insana que já pude vivenciar... sabia de tudo, qualquer assunto. Era de uma dureza incrivel e uma sensibilidade admirável...

Métodos eram muitos... ler a bíblia todos os dias, andando pelo corredor e cruzando com a unha o salmos que já haviam sido lidos. Banhos demorados. Leite de rosas. Leituras cotidianas e programadas.
A telvisão era toda previamente planejada, horarios definidos. O lanche era no horario do jornal, o volume era no mais alto e a atencao redobrada no que era dito. Passava a mesma quantidade de requeijão (colocado na borda do prato) nos mesmos sanduiches grelhado com queijo por cima... colocando a mesma quantidade de nescáfe, com a mesma colher, na mesma quantidade de leite.

Na hora de dormir o meu colchão era colocado do lado da cama deles. Pra eu nao passar nenhum minuto longe... eu adorava o cheiro da madeira no quarto, a luz fraca vinda do lado dele e o lencol fininho que me bastava aquecida... Me lembro de muitas vezes lutar contra o sono pra ficar observando, por baixo da cama, o amarelo-opaco que provinha só daquela direita do quarto... e ouvia minha vó ressonar, com o braço por cima dos olhos...

Até hoje me pergunto o que ele viu em mim... de onde vinha tanto amor se tudo que ele conheceu foi a minha parte quando eu nao sabia valoriza-lo devidamente... que hoje, tantas coisa eu queria mostrar e dividir e perguntar. Me descontrola o peito pensar que perdi tempo... que muitas vezes ele quis me mostrar, me ensinar... mas a ingenuidade me fechava qualquer entrada para o tudo que ele podia me passar...

Eu podia ter aprendido muito mais... por tudo que ele foi pra mim!

Ele foi meus passos de dança, bochechas coladas e meus sonhos no colo. Foi os assobios afinados e o bom gosto musical. Foi os filmes antigos bem explicados. Os gritos furiosos com o futebol...

Sei que ele podia me fazer melhor, se eu pudesse mostrar o que eu sou...

Eu só queria que tivesse sobrado mais tempo pra aprender a ser mais como voce, vô.

Mas pelo menos uma coisa eu aprendi... o meu copo de alumínio vai ficar no congelador!

Manaus, manaus

O manauense é um povinho complicado. De tudo arranja um motivo pra reclamar...

Se chove, reza a Deus pra parar de chover. Se faz Sol, procura o diabo pra culpar pelo inferno.

Amanheceu mais nublado? pode contar que metade da população sai de jaqueta, pullovers e afins, manda desligar o ar-condicionado da sala porque ta "frio"... e quando dá onze horas ta todo mundo de manga enrolada e se abanando.

Sem contar que tudo fazem se arrastando, não importa o quanto estamos pagando pelos serviços, sempre parece que estão nos fazendo um favor. Chego até a ficar constrangida!!

Os mais regionais são os mais intrigantes, porque além de todos os aparatos que um bom manauense detém, ainda vem com uns "extras", originais de fábrica...
É fácil identificar, todo caboco vero tem a voz anasalada, sua mais que o normal e pra qualquer lugar que ele vá apontar ele utiliza o lábio inferior.
E ainda insistem em dizer que são "manauara"... até o shopping nomearam assim!

Uma das patologias mais populares entre essa espécie é a falta de senso do ridículo... não é nada difícil ver modelitos microscópicos em corpos macro +10. Quisera eu ter tanta auto-confiança...

Justiça seja feita. Não podemos negar que é um povo que sabe se divertir... Ora! Há algo mais maravilhoso do que ir à ponta negra num domingo, com um magnifico carro "tunado", uma churrasqueira portátil, sunguinha e barrigão de cerveja de fora?
Lógico que a poluição sonora de diversos tipos de forró/boi/axé (tocando ao mesmo tempo) passa batido ao se deparar com mulheres espetaculares passando blondor em pleno calçadão... uma beleza!

É... o sol é mais quente que o usual, o clima palpavelmente úmido... mas nos rende dias lindos, com céus em tons de azuis diferentes a cada momento e um por-do-sol de dar inveja a muito europeu azedo...

Do rio eu tenho medo... sabe-se lá o que não existe naquela escuridão. Mas é inegAvelmente deslumbrante e (os desabrigados que me perdoem) ainda mais nas cheias.

Eu não AMO Manaus, tão pouco tenho ciúmes... mas, enquanto nao consegui me desgarrar, vou tirando proveito das peculiaridades... de uma forma ou de outra!